Crítica - Blue Moon - Música e Solidão (Blue Moon, 2025)

Mais um show da dupla Ethan Hawke e Richard Linklater.

Vocês sabem que eu gosto bastante do diretor Richard Linklater, se acompanha a página há mais tempo, está ligado que um dos meus filmes favoritos é "Boyhood - Da Infância à Juventude" (2014), também curto muito a trilogia Before (1995-2013), que para mim é uma das melhores do cinema, e, consequentemente, adoro a parceria inseparável do diretor com Ethan Hawke. Mais de 30 anos de trabalhos juntos e até hoje rendendo belos frutos, como é provado aqui no surpreendente "Blue Moon", que conseguiu duas indicações ao Oscar agora em 2026, nas categorias de Melhor Ator para Hawke e Melhor Roteiro Original para Robert Kaplow. Esse é um filme no qual eles queriam fazer há muito tempo, desde os anos 90, e Ethan sempre quis interpretar o protagonista, Lorenz Hart, e demorou para ser realizado justamente por isso, porque segundo o Linklater, o Ethan Hawke naquela época ainda era muito bonito para esse papel. Hoje ele continua sendo, mas a maquiagem é mais avançada, então tornou-se possível deixar ele totalmente desagradável para esse papel, no que lhe rende sua terceira indicação ao carecão dourado e uma das mais bacanas de sua carreira, num filme que tem muito do DNA do que essa dupla entrega: uma história simples, eficiente, com emoções certas nos momentos certos, construindo praticamente tudo em volta dos diálogos e das relações dos personagens, mas aqui carregando tudo no personagem de Hawke, que leva o filme todo nas costas.

Em 1943, no meio da Segunda Guerra Mundial, acompanhamos Lorenz Hart, ou Larry (Ethan Hawke), um velho letrista de teatro da Broadway, que fez muito sucesso ao lado de Richard Rodgers (Andrew Scott) com a dupla Rodgers & Hart, que entregou musicais e canções de sucesso por todo os EUA, incluindo seu maior sucesso, que dá nome ao filme: "Blue Moon", o qual, igual todo bom artista com sua obra mais famosa, ele odeia. Na noite de abertura do novo musical de seu antigo parceiro, agora sem ele, "Oklahoma!", Hart se sente traído durante a noite de estreia e decide ir direto para o bar que vai dar a festa de comemoração. Lá, ele lida com o bartender Eddie (Bobby Cannavale), que tenta controlar os vícios de Hart, e, principalmente, Elizabeth (Margaret Qualley), uma menina de vinte e poucos anos que ele está apaixonado e usando sua idealização para a criação de seu próximo musical. Durante a noite, Hart terá de lidar com sua inveja, seus desejos, seu lado artístico e sua criatividade, se questionando, especialmente, se ele não está ultrapassado enquanto o resto de seus pares vai evoluindo ao seu redor e deixando-o para trás. É um filme bem Linklater, como eu disse, calcado todo em diálogos, aqui dentro de só um cenário e todo voltado para a construção de Ethan Hawke no papel principal, que é a alma do longa, com certeza não seria o mesmo filme sem ele, mas falo mais disso depois.

Linklater conduz a trama de um jeito que remete a um filme da Hollywood clássico, mas de um jeito moderno. Ele tem toda uma vibe de Billy Wilder, misturado com um pouco de "Casablanca" (esse, inclusive, referenciado verbalmente mais de uma vez durante o longa) e uma estrutura narrativa similar a esses filmes dessa época dos anos 40/50, até a linguagem usada nos diálogos é similar, tem uma verborragia característica da época que torna-se uma das partes mais legais da identidade do longa. É uma obra muito oito ou oitenta, se você entrar na do longa e embarcar na dos diálogos, abraçar esse lado mais clássico e culto que existe aqui, a experiência será maravilhosa. Mas, se você não for pego nos primeiros vinte minutos, você vai passar o resto da experiência sofrendo, porque vai seguir a mesma linha até o final. Ainda bem, faço parte da primeira parte, pois eu acho muito cativante como a história vai tentando te prender usando apenas as conversas ali, e cria-se um clima gostosinho e confortável praticamente de cara. Aquele bar é quase um personagem vivo dentro da narrativa, e os personagens dentro dele como o bartender, o pianista ou o entregador, que vão dando movimento e vida ao que vai acontecendo. O longa é vívido, coisas acontecem o tempo todo dentro e fora da câmera, ele é contínuo, então tem sempre alguma coisa ali para movimentar o longa, criando uma gama de personagens que vão revelando diversas facetas do protagonista e completando a história de uma forma agradável, onde é confortável, é bacana de se acompanhar, e esse tom artístico clássico nele é algo que o eleva para um pouco além disso.

O que mais eleva para além do rótulo de legal e confortável é, justamente, o personagem do Larry, que é um protagonista que faz a narrativa andar de forma muito natural. Ele anda em linhas tênues ao longo do filme todo, pois ele é um personagem que é inteligente, que é genial, que tem diálogos muito bons, um carisma, umas ideias malucas, mas isso tudo caminha lado a lado com ele ser meio desagradável, soberbo, arrogante, invejoso, em alguns momentos até meio inocente, e isso é até algo que eu considero uma qualidade do filme, já que deixa ele mais palpável, deixa ele mais humano e faz com que ele seja mais fácil de comprar, ele tem erros, mas ele tem suas qualidades, e isso deixa ele mais vívido, num equilíbrio que é muito bem encontrado pelo Ethan Hawke em sua performance. Deu para entender o porquê ele sempre quis tanto esse papel, encaixa perfeitamente com o tipo de personagem que ele costuma fazer, especialmente na parceria dele com o Linklater, que é todo construído na base dos diálogos, mas que também é diferente de tudo o que ele faz, já que ele não precisa ser um galã nem um pai de família, é um papel que exige dele algo mais profundo, onde ele traz essa genialidade do personagem, essa inteligência que ele tem, como ele é realmente brilhante, mas como ele também é arrogante, não consegue ficar genuinamente feliz por seu antigo colega, tenta tirar o foco dele diversas vezes, diminuir o que ele faz e puxar tudo para o lado dele, tentar fazer ser sobre ele de alguma forma. 

O Ethan Hawke se entrega de corpo e alma ao papel, dando momentos onde o personagem dele se destaca, pois ele tem uma certa "arrogância inocente", onde ele está sendo egocêntrico e centrado nele mesmo sem perceber. O amigo dele acabou de estrear a maior obra da carreira dele, o sonho dele, e esse cara fica lá falando de uma ideia de um musical que ele teve baseado numa menina que é quase trinta anos mais velho e vê mais ele como professor do que como um possível par romântico. Hawke traz essa inconveniência em sua performance, ele é meio intrometido, extrovertido, mas ele tem um carisma ali que vai sustentando além do personagem e levando o filme para a frente, ele dosa bem quando ele tem que usar o carisma a favor do longa e quando ele tem que ser desagradável, intrometido, trazer esse lado do seu egocentrismo, que faz você notar como ele não é totalmente inocente no seu jeito de ser. Quando eu digo que é de corpo e alma que Ethan se entrega, começa pelo fato dele estar rebaixado (eu não aguentava não, me matava de rir toda vez que ele ficava de pé e estava no mesmo tamanho que ele estava sentado), e também a calvície, já que o Ethan Hawke verdadeiro é muito chad para estar calvo e colocam uma maquiagem nele que ajuda um pouco nesse ar desagradável que ele precisa ter em diversos momentos, a lente do olho castanho (quase preto), e o cabelo tentando esconder o que não dá para esconder. São elementos visuais, mas que somados à performance de Hawke, dão identidade ao papel e deixam ele mais distante do ator, fazendo que em um certo ponto você esqueça que é o Ethan Hawke e passa a crer que é aquele semi anão careca de verdade, e esse é um feito impressionante.

Acho que um dos grandes trunfos é o elenco como um todo, já que vemos o foco todo no Ethan Hawke, transitando dentre essa variada gama de personagens que dá uma variação muito boa para a trama, e todos os personagens acabam que tem um certo carisma ali que ajudam a compor bem o ambiente e trazer uma certa individualidade aos diálogos, com o Larry agindo dessas diferentes formas com diferentes personagens, isso vai de personagens pequenos desde o soldado pianista, a moça da chapelaria, ou envolvidos secundários no musical, até personagens que tem um pouco mais de destaque, como o próprio Richard. O que eu achei bacana dessa relação que o Linklater traz é que ele não dá razão ao Larry e nem transforma em uma rivalidade, ele dá profundidade àqueles dois e na relação deles em poucas cenas, através de diálogos, mostrando como Larry se sente em relação ao amigo seguindo um caminho próprio, vilanizando ele, mas aí quando vem o lado do Richard entendemos bem isso e como o próprio se importa com o Larry, dizendo que só fez aquilo sozinho pois ele não aguentava mais ver o amigo se perdendo na bebida e isso fez ele perceber que talvez ele não iria longe com ideias que ele tinha, que ele não podia mais se prender nisso. O Andrew Scott manda muito bem nesse papel, que contrasta bem com o falante e excêntrico Larry, onde ele é mais quieto e direto ao ponto, mas eficiente em fazer com que você acredite no ponto dele e crie mais essa camada de um pouco de algo mais desagradável encima de Larry.

Outro personagem que funciona bem como um excelente coadjuvante é o barman, interpretado pelo Bobby Cannavale, e eu pessoalmente eu acho esse ator excelente em comédias, aqui mais uma vez não é diferente, já que ele é ativado poucas vezes durante a trama, mas ele tem uma interação muito boa com o Hawke, excelentes falas e um carisma que também é cativante, ele é o típico personagem coadjuvante que eleva o filme compondo uma boa parte da essência dele. Outra personagem bem legal e que gera alguns dos melhores diálogos do longo é a Elizabeth, interpretada pela Margaret Qualley, que apesar de eu não comprar que ela no filme tenha acabado de fazer 20 anos de idade (não é chamando ela de velha, mas acho que ela já passou dessa fase de adolescente/jovem adulta), ela funciona bem como essa musa do Larry. Ela tem esse magnetismo da aparência dela, já que a Qualley é uma atriz inegavelmente lindíssima, e isso é usado a favor da trama para compor até a identidade de Hart, que a idealiza e a põe num pedestal tão altíssimo (na real ele nem precisa pôr ela num pedestal, ela tem o dobro da altura dele de qualquer jeito) que ela meio que o cega, ele fica tão fascinado por ela e qualquer coisa que ela faça, e ela justifica isso pois o magnetismo dela não é apenas pela aparência, o jeito de falar dela, sua eloquência, como isso prende você assistindo, tudo o que ela fala soa mágico, que faz você entender bem a paixão do Larry por ela, que torna-se justificável.

É um filme que tem seus problemas também, como eu falei, ele não é lá dos mais acessíveis, se não pegar a dele em vinte minutos, não pega mais, e tem coisas ali que, apesar de ser um filme de época, soam um pouco velhas ainda, como se não tivessem revisado o roteiro desde os anos 90, mas ok, acaba se justifica um pouco sendo esse filme de época, e o roteiro é bom, o filme é só isso, totalmente dependente disso e acaba funcionando perfeitamente, uma indicação merecidíssima ao Oscar, pois é o que sustenta o filme, junto com o Ethan Hawke. "Blue Moon - Música e Solidão" é mais uma bela adição ao catálogo da dupla Linklater e Hawke, com uma atuação marcante do ator, que traz esse papel com excelência, numa performance desafiadora e diferente dentro do que estamos acostumados a ver deles. Um elenco muito bom, uma vibe bonitinha e redondinha, e esse subtítulo, "música e solidão", define muito bem o que é esse filme, a solidão de um homem que vive para a música, e vemos o retrato final de sua solitude, que em justamente estando rodeado por outras pessoas. Façam mais filmes de papo de bar, merecemos isso, que vibe gostosinha de assistir.

Nota - 8,0/10

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