Crítica - Lanternas (Lanterns - 1ª Temporada, 2026)
Mais uma série boa da DC que o finale joga para baixo.
Voltamos com o DCU na página, não do jeito que eu gostaria que voltasse para ser honesto, pois ultimamente estamos passando por momentos de grandes questionamentos encima do chefe James Gunn e suas decisões criativas esquisitas, como dar sinal verde para uma série do Jimmy Olsen com o Gorilla Grodd, não ter um Batman escalado no seu universo, filme do Bane com o Exterminador dirigido pelo cara de "Superbad", além do fracasso retumbante de "Supergirl" (2026), que eu já falei por aqui, eu não acho um filme ruim, mas também não dá para dizer que merecia ser um sucesso, é um filme bem fraco. Agora, temos aqui um dos projetos de mais desconfiança dentro desse universo, um projeto sombrio e realista da HBO com os Lanternas Verdes, que desde o anúncio vem gerando polêmica, durante o marketing estava causando polêmica e continuou com suas polêmicas durante toda a série, muito disso porque as pessoas dizem que a série desrespeita o personagem do Hal Jordan, que tem "lacração" no arco do John Stewart (chega dessa palavra maldita também, já deu já), que não tem verde o suficiente na série, e por aí vai. Porém, esse barulho todo é barulho de formiga, já que quem vê a recepção majoritária da série e avaliações, viu uma discrepância enorme por uma avaliação extremamente positiva. Claro, a série não é perfeita, tem coisas nela que eu não gosto, inclusive eu achei o final da temporada muito fraco, mas eu acho esse hate que ela sofreu um pouco exagerado, e vou desenvolver isso ao longo do texto.
Na pequena cidade de Rushville, no interior do sul dos Estados Unidos, rumores começam a circular de que existem alienígenas disfarçados escondidos por ali. Com isso, o Lanterna Verde do Setor 2814, Hal Jordan (Kyle Chandler), decide ir lá para investigar essas anomalias, junto de seu trainee, John Stewart (Aaron Pierre), que vem sendo preparado para assumir o manto por ordem dos Guardiões do Universo. Lá, eles precisam lidar com suas diferenças, enquanto tem de investigar a possível ameaça dos Caçadores Cósmicos, uma raça de robôs extraterrestres que são procurados intergalácticos. A trama da série ao longo dos episódios torna-se muito mais complexa do que isso, mas a base é essa, e bem, é uma série que no geral eu gostei. Achei que o final puxou muito para baixo, não gostei de muita coisa ali, muitas resoluções que não foram resolvidas de fato, e acho que ficou devendo em muita coisa, mas no geral, eu curti essa experiência de ver a construção desses personagens. Eu gosto muito de Lanterna Verde nos quadrinhos, e honestamente eu não me incomodei com muita coisa que os tais fãs dos quadrinhos se incomodaram, justamente porque eu entendo que a série é uma adaptação e tem o direito de tomar certas liberdades criativas, e existem algumas que eu achei boas, achei bem feitas, se justificaram dentro da próprias série, e outras que não me desceram muito bem, acho que ficou devendo em certas coisas, especialmente no arco do John Stewart, que pessoalmente não me agradou tanto apesar de gostar muito do personagem aqui.
A série começa muito bem, eu gosto de como os dois primeiros episódios conseguem trazer essa vibe de policial e detetive com Lanternas Verdes muito bem, a clara inspiração em "True Detective" (2014-) desde o anúncio, e aqui acho que funcionou bem, claro que para os fãs nunca vai estar bom, eu também confesso que gostaria de algo espacial e fantástico envolvendo Lanternas Verdes, não serei hipócrita, mas de fato não me incomodou em nada eles irem por esse lado. Quando vem o terceiro episódio, aí eu já começo a achar algumas coisas um pouco bizarras. Claro, esse episódio gerou polêmica justamente por tocar em questões raciais, estamos falando de um personagem como John Stewart, isso é enraizado nele, não tem como deixar isso de fora, e não é isso o que me incomoda. O que de fato me incomoda é darem um arco de predestinado ao John, de transformarem ele no escolhido, o que para mim foge totalmente do conceito de Lanterna Verde, é o anel quem te escolhe, e não você que tem que trabalhar para ser digno. Aí vem os dois episódios seguintes, trabalham muito bem essa questão do mistério, a investigação envolvendo os aliens, o ápice da série é por ali, com o quinto episódio tendo até uma vibe de season finale no meio da temporada. O que se sucede nos episódios seguintes é a linha do tempo dos dias atuais, que é a investigação da morte do Hal, e é onde a série põe o pezinho no freio e começa a trabalhar um pouco mais lento, o que ainda funciona, com a expectativa de que o final vá entregar algo bom e minimamente grande dentro da escala, o que não acontece, o final é muito fraco e termina com mais perguntas do que respostas. Até o momento que estou escrevendo, não foi confirmada segunda temporada, então não sei se a história irá continuar, mas mesmo para o final de uma temporada, já é bem abaixo.
Eu vou começar falando do que eu não gostei já para me livrar. Que nem eu falei, eu não gosto dessa narrativa de "O Escolhido", do John Stewart ser destinado desde a infância a ser o Lanterna Verde, dos pais dele criarem ele especificamente para isso, eu acho isso um erro monumental que não conversa com o conceito que é apresentado dentro da própria série. Outra coisa que eu não sou fã é dos personagens secundários dessa série, ela se sustenta muito bem nos dois excelentes protagonistas, o Hal e o John, e tem uma boa personagem que é quase uma terceira principal, que é a Kerry (Kelly Macdonald), que tem um arco muito bom e termina de um jeito agridoce, mas de resto, todos os personagens são qualquer coisa. O Sinestro (Ulrich Thomsen) nessa série é um inútil, ele parece que está lá só para dizer que aliens existem, que tem um lado espacial, mas no final se não tivesse ele, dava na mesma praticamente, e termina sem ele se tornar um Lanterna Amarelo, apesar dos indícios que existem, mas acho que já aqui dava para encaixar esse cliffhanger, seja para uma segunda temporada ou futuro filme. Outra que não curti é que tem essa subtrama do John com a garçonete lá do café, porque os pais dela morreram na explosão lá e tal, ele tem culpa, mas esse arco serviu para o quê? Não teve nada ali, não acrescentou absolutamente um milímetro na trama da série, só tomou tempo de tela desnecessariamente. Outro personagem muito fraco também é o Noah (Shea Pritchard) que ganha esse destaque no final e não serve de nada, porque é só uma semente plantada para um futuro que não temos nem a certeza de que vai acontecer, e esse ator também é muito ruim, deu pena de ver ele contracenando com o Aaron Pierre, para ser honesto.
Tem outras coisas que eu desgostei, mas são mais pontuais, acho que esses no parágrafo anterior são os principais. E bem, é preciso ser dito também que, não é exatamente um problema, mas é uma questão orçamentária, de que não estavam muito afim de arriscar muito no projeto e nisso acabou que certas coisas foram bem limitadas, então tem alienígenas, mas eles são todos em formas humanas, você não sabe quem é quem, o que poderia ser bem trabalhado até como algo de paranóia dentro da série, mas não é tanto assim, até é nos episódios que essa trama rola, mas depois é deixado de lado, acho que eles constroem bem o mistério do Caçador Cósmico lá no início, era algo intrigante, quando vem a revelação acaba que é realmente um pequeno choque, e eu gosto de como toda essa narrativa foi trabalhada, a questão dos Macons, do complô, da fazenda, isso estava muito massa. Acho que todo o clima no geral é muito bom, tanto quando foca nesse lado mais noir da parada, quanto quando eles trabalham algo mais pessoal e mais dramático. Mas as minhas partes favoritas são quando eles exploram a mitologia dos Lanternas Verdes, a questão do anel, dos constructos, até a minha parte favorita é justamente no sétimo episódio quando o John e o Halograma vão para outro planeta, e isso me deixa animado para um possível futuro envolvendo esses personagens.
A melhor coisa da série, de muito longe, são os dois protagonistas, a começar a falar pelo John. Cara, primeiro de tudo, mais um trabalho de casting excepcional do DCU, escalaram um cara idêntico a versão mais conhecida do personagem, que é a do desenho clássico "Liga da Justiça" (2001-2004), e o Aaron Pierre é um ator fenomenal. O John dessa série é legal, como falei, tenho minhas restrições com o arco dele, de como começa e um pouquinho de como termina, mas eu gosto de como ele é desenvolvido usando desde o início o que faz do John Stewart a versão clássica do personagem que eu gosto muito e que é o que dá personalidade a ele: a disciplina de fuzileiro e a criatividade de um arquiteto (e a safadeza de um comedor de casadas), mostrando como desde criança ele sempre teve um lado artístico, inventivo, e como isso somado à postura militar dele cria basicamente o protagonista perfeito dessa história. Eu não gosto tanto do arco dele com a família dele, para mim é a pior parte da série, mas eu gosto de uma coisa ou outra ali. O que eu gosto mais é como ele vai se desenvolvendo desde ser o trainee do Hal Jordan que é um pouco sabotado pelo próprio por conta dele não querer perder o anel, depois como ele vai ganhando as camadas próprias, e ele sempre mantendo a postura, sempre centrado, mas quando ele precisa sair disso para uma situação de descontrole, ele sai.
Eu gosto também de como trabalham o arco dele através do medo, o medo que é um grande tema da temporada, e faz sentido, e é essa uma das coisas que eu vi muita gente reclamando, que pouco se falou de "força de vontade" durante a série, o que eu até concordo, mas eu acho que isso está lá, só não foi dito explicitamente, e acho que até a fala final do Halograma para ele é uma prova disso: "não tenha medo de ter medo", e a força de vontade, de certa forma, é basicamente isso, até porque não é o anel da "coragem", não precisa ser destemido, você só tem que ter a vontade de fazer o bem, a vontade de ajudar e fazer isso sem medo, e é o que o John aprende ao longo da série. A única coisa que eu fiquei meio chateado na conclusão dele nessa temporada foi deles terem mudado o juramento. Ah, meu mano, eu sei que já teve uma época nos quadrinhos que cada um tinha o próprio juramento, e até que eu achei o juramento do John bem escrito, mas eu particularmente não mudaria, é tão enraizado na cultura do personagem que para mim deveria manter. Talvez seja algo que ele aprenda a lidar ao longo da segunda temporada ou dessa fase inicial do DCU, mas tomara que voltem atrás nessa. Eu entendo, mas essa é uma adaptação que eu não gostei.
Também é necessário falar do GOAT, do Hal Jordan, que é o melhor personagem da série de muito longe. Sim, eu critiquei a escalação do Kyle Chandler, eu fiquei irritado que escalaram um velho para ser o meu Lanterna Verde favorito, porque eu queria que ele fosse o Lanterna principal de um universo DC, mas infelizmente ele ainda é muito manchado pela desgraça que foi o filme de 2011 e muitas outras coisas que roteiristas fizeram o Hal Jordan ser décadas atrás. Mas, voltando à série, devo dizer que é um dos maiores acertos de casting do DCU, para mim é um acerto de casting de obras de heróis no geral, ele foi simplesmente perfeito. Ele capta o carisma do Hal perfeitamente, o sotaque californiano de Coast City, o lado babaca dele, o sarcasmo, esse charme que ele tem, essa lábia, e como a gente vê diferentes versões dele. A gente vê brevemente ele nos anos 90, no seu início da vida heróica, mais sério, mais centrado, sendo essa celebridade. A gente vê ele de 2006 através do Halograma, uma versão sagaz, uma versão divertida, descontraída, que é a essência do personagem. E a versão de 2016 em diante, a versão quebrada, abalada, em queda livre. Essa versão do Hal traz um dos dilemas mais interessantes do personagem que é a solidão, justamente por ele passar tempo demais fora da Terra, tanto na série quanto nos quadrinhos, ele acabou se desconectando de tudo, ficando sem ninguém, ele é solitário, ele é ressentido, e quando vem o flashback da infância dele, o que o pai dele fala para ele usando a metáfora da bola de beisebol, esse arco todo do Hal Jordan é uma grande história sobre depressão, como ele ficou amargo, sem nada nem ninguém, e como ele percebeu isso tudo tarde demais e só muito depois percebeu o que o pai dele estava falando, e eu achei isso sensacional, a cena que ele tem no barco no penúltimo episódio, o monólogo do Halograma, é maravilhoso. Muita gente ficou chateada dizendo que a série é "um desrespeito aos quadrinhos", "estragaram o Hal", mas aqui eu considero um exemplo de adaptação muito bem feita, pois casa com a série e com a mensagem que eles queriam passar. Até a despedida dele, a última cena, é maravilhosa e totalmente no branding do personagem.
Uma coisa que precisa ser destacada também é a dinâmica desses dois juntos, eles funcionam excelentemente em praticamente todos os momentos que eles estão juntos, sejam eles discutindo, treinando, ou se dando bem. É até um pouco engraçado que o John se dá melhor com o Halograma do que ele se dava com o Hal em 2016, porém, na realidade faz todo o sentido com a depressão que o Hal teve nesses dez anos que impactaram o personagem. Mas a interação desses dois atores é maravilhosa, o Aaron Pierre com o Kyle Chandler funciona como mentor e aluno, como parceiros de investigação, como rivais (apesar de eu achar em alguns momentos que dão uma forçada de barra nisso), e como amigos. Eu adoro o sétimo episódio que são eles juntos, só que o Hal antes de tudo na versão do Halograma, é o ápice da interação dos dois, os diálogos entre os dois são muito bons em todos os episódios, e pô, até a despedida do Halograma no último episódio que eu citei brevemente no último parágrafo é a melhor parte da fraca season finale, que ele obriga o John a dizer "eu te amo" como uma resposta a uma pergunta aleatória e responde com "eu também te amo, Júnior" - essa running gag dele ficar chamando o John de Júnior também é maravilhosa. Eu acho que é o ápice da série ver esses dois juntos, eu gostaria de mais, de ver mais deles sendo amigos, deles interagindo juntos, espero que isso volte em algum momento de alguma forma.
Há também uma coisa que une esses dois, que é a atração indomável que ambos sentem por mulheres casadas, e vou falar brevemente delas, que acho que são as únicas personagens coadjuvantes realmente boas dessa série. Começando pela vovó, Zoe (Poorna Jagannathan), que é uma personagem interessante, até porque ela é a vilã da série de certa forma, mas também tem uma relação muito interessante com o John. É uma personagem que mantém o impacto mesmo quando não está em cena, e que nós como espectadores, entendemos que ela não é exatamente uma vilã, que ela tem uma tragédia, que é revelada num dos diálogos do John com o Noah no último episódio, e é uma subversão muito interessante da personagem, além de, claro, gerar o meme do John Stewart correndo atrás de casadas, comedor de avó, que foi a melhor parte do extracampo da série. E temos a casada do Hal, a xerife Kerry, que é a melhor personagem coadjuvante da série, pois todo o arco dela fez muito sentido, ela começa como essa policial que parece ser secundária, vai ganhando cada vez mais destaque, inicia-se essa relação dela com o Hal e o encerramento dela é muito agridoce, que resolve o mistério principal da série desde o episódio piloto, e bem, eu achei que era uma ideia bem ruim, mas acabou que foi coerente, acho que fez sentido para o arco dela porque é algo que faz você sentir raiva e pena dela na mesma intensidade, assim como ela mesma sente, e a Kelly Macdonald é maravilhosa, que atriz espetacular, essa cena mesmo que eu falei, você enxerga na cara dela o turbilhão de emoções que ela está sentindo. Uma tristeza ela ter feito o que fez, não irei perdoá-la, mas é algo que dentro da narrativa faz sentido.
Enfim, mais uma obra polêmica consecutiva do DCU de James Gunn, já dá para pedir música no Fantástico, mas encerro falando que "Lanternas" foi uma experiência gostosa na maior parte do tempo. Claro, não é uma série perfeita, nem perto disso, tem muitos problemas, já tinha alguns problemas antes do episódio final, aí quando ele veio meio que triplicou os defeitos da série, mas eu acho que funciona no geral. Claro, uma série que foi bem limitada por orçamento, teve diversos problemas envolvendo isso, todos os alienígenas na série são simplesmente humanos disfarçados, o que é meio sem graça, e também é uma série de Lanterna Verde que faltou um salzinho, faltou um tempero a mais de Lanterna Verde, tem a boa partipação do Guy Gardner que eu deixei de mencionar porque não é tão grande, mas é legal no desenvolvimento de universo, e a coisa que eu mais senti falta: o traje do John, nem que fosse no último frame, faltou só isso. Uma série que tem como destaque seus dois personagens principais, brilhantemente interpretados por Kyle Chandler e Aaron Pierre, que dá uma capinada boa no que será o personagem do John nesse universo, ele que retornará já no próximo grande filme desse universo e aparentemente de forma bem relevante, e que tem um selo HBO de qualidade apesar de tudo. O final é decepcionante, é muito sem graça, mas, majoritariamente foi uma experiência boa, uma série muito bem escrita, com temas muito interessantes, que não são lá a adaptação ideal do Lanterna Verde, mas certamente são uma adaptação, e bem, não sei se entra na coluna de acertos do DCU, acho que o único acerto de fato foi "Superman", porque com o tanto de gente que não gostou da série, não sei se dá para considerar um acerto, para mim, tinha que ser pelo menos 85/15 pra considerar um acerto em uma franquia como essa. Mas eu gostei, acho que vale a pena, especialmente se você não for fã de quadrinhos e só quer ver uma série, ou se você for um daqueles fãs que não é insuportável e chorão, dá para assistir de boa, apesar de tudo, de ter muitos erros, é uma série bem feita.
Nota - 7,5/10
Nota por episódio:
1x1: "Pilot" - 8,5/10
1x2: "Trust Fall" - 8,0/10
1x3: "OutKast" - 6,5/10
1x4: "The Weenie" - 8,5/10
1x5: "Lights Out" - 8,5/10
1x6: "Bad Optics" - 7,5/10
1x7: "The Jordan Boys' Legacy" - 8,5/10
1x8: "Dirt and Stars" - 5,5/10