Crítica - Supergirl (2026)
Minha loirinha favorita finalmente nos cinemas.
Ah, cara, como eu esperei por esse momento. Finalmente a Supergirl nas telonas. Ok, existe lá o filme de 1984, mas ninguém liga, nem eu. E agora, sabendo de universo compartilhado, tendo já anteriormente o filmaço que foi "Superman" (2025) e sabendo que tem ótimos artistas por trás dessa vez, não tem como eu, como fã da DC, não ficar animado nesse momento, ainda mais se tratando de uma das minhas personagens preferidas, que é justamente Kara Zor-El, a Supergirl. E, bem, é um caminho inusitado seguir já no segundo filme desse universo com a Supergirl, é uma personagem que geralmente iriam apostar mais para a frente, mas como James Gunn quer focar inicialmente nos personagens do universo do Superman, faz sentido que a Supergirl seja escolhida no início do universo, e adaptando diretamente a HQ mega premiada e mega elogiada "A Mulher do Amanhã", de Tom King, que tinha um potencial enorme. E bem, eu posso dizer que eu curti o filme, mas eu também acho que o potencial enorme não foi atingido, e que poderia ter sido bem mais do que foi, já que existem diversos problemas aqui, apesar de eu ter gostado dos acertos.
No seu aniversário de 23 anos, Kara Zor-El, a Supergirl (Milly Alcock) decide viajar pelos planetas e galáxias para festejar e beber à moda loka, ir para planetas de sol vermelho para se embriagar e viver a vida. No entanto, quando ela para em um desses planetas de sol vermelho, ela é abordada por Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma menina de 13 anos, que viu sua família ser assassinada na sua frente por Krem (Matthias Schoenaerts), líder dos Bandoleiros, uma gangue de criminosos alienígenas que sequestra mulheres para continuarem procriando sua raça só de homens. Após insistência de Ruthye, Kara se junta à ela, com o objetivo de salvar seu cachorro Krypto, que foi envenenado pelos Bandoleiros e só eles tem o antídoto. E bem, é um filme que tinha um material muito legal para usar de base, a HQ é muito boa e visualmente muito bonita, uma ópera espacial impressionante, e o filme torna-se, muitas vezes, sem graça, redundante e muito sem personalidade. É engraçado, uma das coisas que eu mais elogiei em "Superman" ano passado foi a personalidade, e aqui é justamente o que não tem, já que torna-se um wannabe de "Guardiões da Galáxia" (2014) impressionante, usa praticamente todos os recursos que o James Gunn usou lá na Marvel, os aliens esquisitos, as jornadas espaciais, as maquiagens, até o vício em enfiar diversas músicas licenciadas em meio à narrativa, acontece que nesse aqui é muito qualquer coisa, torna-se redundante, especialmente o começo, que eu estava quase dormindo, a primeira metade desse filme beira o sonífero.
O filme demora bastante a engrenar, essa primeira metade do longa é um grande problema, pois se você não aguentar, é difícil de gostar depois. Eu confesso, essa nota positiva é totalmente enviesada porque eu comecei a gostar do filme na segunda metade e porque eu sou DC, mas pô, demorou para o filme ter algo interessante de verdade. A trama torna-se meio que qualquer coisa, já que essa jornada de vingança da Ruthye é totalmente sem importância, porque essa personagem é muito chata e não dá para aturar ela, ela é insuportável, e você não comprando ela, acaba que se vai metade do longa, já que ela age como a sidekick da loirinha nessa história. Eu acho que o longa engrena quando existe ali um flashback de Krypton, mostrando como Krypton foi destruída no DCU, um conceito bem interessante, Argo City, Kryptonita, tudo mais, uma adaptação bem bacana, e a Supergirl sendo, factualmente, mais nova do que o Superman, ela não se perdeu no espaço nesse universo, ela nasceu depois em Argo e foi enviada para a Terra, no que eu achei uma decisão muito acertada de adaptação, e dali para a frente, apesar da Ruthye, tem uma aventurinha bem legal, carregada nas costas pela protagonista, diga-se de passagem, mas que eu me diverti com as cenas de ação, todo o arco da Kara aceitar usar o uniforme, aceitar usar o símbolo da Casa de El, aceitar ser a Supergirl, e entender o lado bom dela, apesar do lado ruim que ela carrega, é um arco bem bacana.
Eu gosto do arco da Supergirl no filme justamente por ser bem diferente do que a gente tá acostumado em filmes de herói. Ela é beberrona, jovem, descolada, ela está ali num meio termo entre ser uma heroína jovem padrão e ser uma anti-heroína que não está nem aí para nada, mas que vai aprendendo a encontrar o equilíbrio, a matar seus próprios demônios de pouco em pouco, e no final aceitando a buscar ser um pouco melhor, o finalzinho dela decidindo tentar ser um pouco mais igual ao Clark, apesar de tudo o que ela passou durante o filme, prova que ela é a Supergirl. E a Kara tem um método diferente de agir do Superman, eles acreditam nas mesmas coisas, tem as mesmas crenças, mas ela passou por coisas que ele não passou, ela viu os pais morrerem, ela foi retirada de Krypton, ela não vai para a Terra como um plano, ou para cuidar do Clark, ela vai no desespero de que ela é uma esperança e que ela não pode ficar mais por lá e ter o mesmo destino da civilização, fadada à extinção devida a radiação de kryptonita. E isso a torna uma personagem com casca, com sentimentos reprimidos, que só são liberados através da bebida e de fugir de tudo e todos. É até interessante que tem uma participação até que grandinha do David Corenswet como Superman, ele não interfere diretamente na trama principal, mas ele aparece para demonstrar o contraste com ela várias vezes, e eu confesso que eu quero ver essa relação deles, porque o potencial está ali. E eu gosto da Milly Alcock, demais, um acerto de casting, esse é um problema que o James Gunn não tem, que é acertar nos papéis, e ela manda muito bem como Kara, ela entrega essa personagem mais contida, que tem raiva reprimida, que tem tristeza reprimida, e que é carismática até o talo, é até um carisma culposo, pois muito o que a Kara faz é ficar de ressaca com uma cara de bunda, mas ela compensa demais quando abre a boca, quando decide ser ativa, e nas cenas de ação ela convence muito, tem uma presença boa, o uniforme caiu bem demais nela, e ela merecia um entorno melhor do que teve.
Esse entorno que não é alcançado por quase nada ao redor dela, sejam os outros personagens, as músicas, mas especialmente a direção, que deixa a desejar em diversos momentos. Eu gosto do diretor, do Craig Gillespie, tem filmes dele que eu acho muito bons, como "Eu, Tonya" (2017) e "Dinheiro Fácil" (2023) - inclusive, filmaço, procurem -, mas aqui ele tenta emular muito o James Gunn e não funciona. O James Gunn é um ser muito único, com uma personalidade muito própria, e quando alguém tenta ser igual a ele, é difícil funcionar, pois ele é muito exclusivo, ele tem uma personalidade que é difícil de ter, e é o que não tem aqui em Supergirl: personalidade. É um filme até meio feio visualmente. Eu acho o trabalho de figurino e maquiagem primorosos, especialmente a maquiagem, que tem uma variedade grande e em grande volume, personagens diferentes, raças diferentes, realmente tem um apuro técnico gigantesco por ali. Agora, a direção de arte desse filme é fraquíssima, não só os cenários, mas como eles são filmados, parece tudo muito sem vida. Os cenários externos são bonitos, as locações, mas tudo o que deveria ser mais fantástico, tudo que deveria ter um apelo mais sci-fi ou fantasioso, não tem, e isso é um problema, todos os planetas parecem ser o mesmo lugar, não há exclusividade. Dá para justificar como uma escolha técnica para representar a brutalidade e o sentimento robusto da protagonista? Dá, mas aí é passar pano demais. E também a HQ tem a mesma jornada dela, e lá é lindíssimo. Não é nem querendo que seja igual, mas se tivesse um tratamento pelo menos similar ao dos filmes do Gunn e mais parecido com o que o Tom King escreveu, por exemplo, já teria melhorado bastante. Inclusive, é só comparar as cenas de Metrópolis nesse filme com o do Superman, a diferença é bizarra, lá era uma cidade vívida, colorida, simples mas com um estilo próprio, aqui parece que eu estava assistindo com o brilho baixo. E toda a parte sci-fi, ela me lembra tudo o que eu não gosto lá no primeiro "Duna" (2021), que eu já falei aqui que meu problema é que é tudo muito cinza, muito marrom, e fica sonolento encarar aquilo tudo por horas e horas, e aqui é semelhante. Espero que, em uma eventual sequência, ou nos próximos capítulos desse DCU, não se repita isso e haja uma evolução, assim como houve do Duna parte um para a parte dois.
O vilão também não é lá grandes coisas, o Krem. Eu gosto da atuação do Matthias Schoenaerts, ele entrega um olhar de psicopata, ele se porta que nem um louco, quando ele está em cena ele é ameaçador, mas, ele não tem sustância, é vazio, nele nem o mau por ser mau justifica, porque a participação dele na trama não tem tanto impacto assim. A cena de apresentação dele é bacana, é até um pouco inspirada por "Bastardos Inglórios" (2009), mas ele só vai tendo algumas ações e ao longo do filme ele só vai servindo para gerar cenas de ação e pouco mais do que isso. O pouco mais que tem, como uma cena dele ameaçando a Ruthye, é muito massa, ele se impõe, ele age que nem um doido, mas no resto, ele é qualquer coisa, um chefão genérico que está lá para a Supergirl derrotar. Agora, quem rouba a cena é o Lobo do Jason Momoa. Primeiro que é um casting perfeito, ele nem precisa atuar, ele só precisa ser Jason Momoa. É o papel dos sonhos do cara, quem ele queria ser antes de ser o Aquaman, e ele manda bem demais, porque não tem mistério. Ele é inserido na história do jeito mais Lobo possível, que ele só quer o dinheiro dele, fumar charuto, andar de moto e escutar uns rocks, é esse o espírito. A introdução dele é braba, as cenas de ação que envolvem ele no meio são as mais legais do longa, e ele está claramente se divertindo demais no papel. Ele é um casting muito acertado, é um deleite ver um dos melhores personagens da DC finalmente nas telonas.
Acho que aqui foi tudo o que eu tinha para falar sobre "Supergirl", infelizmente não é um filme que dá para tirar muito dele, o que é uma pena. É uma das minhas personagens preferidas da DC e no geral (a ponto de que eu falo aos montes que o nome da minha filha vai ser Kara, por causa dela), é baseada numa das grandes HQs recentes da DC, e pega uma ópera espacial belíssima e envolvente, e transforma numa experiência que muitas vezes é chata, é monótona, e a primeira metade do filme é bem mais ou menos, é bem arrastada e é difícil de gostar. Se você sobreviver a essa metade inicial, a metade final tem bastante a oferecer, como boas cenas de ação, bons momentos, conceitos interessantes e personagens legais que carregam nas costas como a própria Kara e o Lobo. Minha questão é que fica muito aquém do que deveria ser, porque com a base que tem, com o potencial que existia, tinha calibre para ser até melhor que o Superman, mas infelizmente, se perde em um visual sem graça, onde todos os cenários parecem a mesma coisa, um rip-off descarado de Guardiões muitas vezes, e justamente nas piores partes, com uma jornada de uma personagem chata como parte central da trama, um vilão que não tem ameaça, e uma trilha sonora tenebrosa (e não, a música da Blondie que toca em todos os materiais promocionais sequer toca no filme, eu fiquei de cara). Eu gostei? Gostei, mas mais pelo finalzinho do filme que dá uma salvada, pela Milly Alcock incrível como Kara, pelo Momoa como Lobo, e pelas cenas de ação, a história é boa, os principais problemas são mesmo a direção e as decisões criativas, que fazem deste um filme ok, quando poderia ser um filme excelente, o que é uma pena. Na realidade, se esse filme estivesse na fase 2 desse universo, seria só mais um, seria tipo um Homem Formiga, mas como é o segundo desse universo, pesa mais negativamente, e talvez tenha sido um erro de percurso da DC de James Gunn nesse momento. Honestamente? Acho que o James Gunn sabe o que ele está fazendo na trama que ele escreve, ele parece ter encaminhado o que ele vai fazer. Agora, o que é fora dos dele, parece que ele está atirando para todos os lados e ver no que vai dar. Preocupante, mas ainda não alarmante.
Nota - 6,5/10