Crítica - Toy Story 5 (2026)

E de novo vem a velha questão: precisava?

A franquia Toy Story é, de longe, uma das franquias mais amadas do mundo. Não tem como, está marcando as pessoas por gerações, o primeiro filme foi lançado há 31 anos atrás, então são pelo menos três gerações que vem sendo impactadas pelas aventuras de Woody e Buzz. É só pensar, uma criança de 12 anos que viu o original lá em 95, hoje tem 43, dependendo pode até ter netos, então é um produto que faz parte da vida de diversas pessoas há muito tempo. Eu mesmo, é um dos filmes que mais marcou minha infância, eu tenho um carinho muito especial pelos três primeiros, eu cresci vendo a trilogia original, e não tem como não ser apegado a Toy Story, eu tinha um Woody e um Buzz de borracha gigantescos que eu, infelizmente, não tenho mais, e sempre foi presente na minha vida a ponto de que eu não lembro de ver esses filmes pela primeira vez, é como se eles estivessem na minha mente desde que eu nasci. E aí vem o quarto filme em 2019, que é um bom filme, mas que meio que fica como uma marca negativa pois vem aquela velha questão: precisava? Pois encerrou tão bem com o terceiro, então, para que haver um quarto? E agora, a mesma coisa ocorre com esse quinto filme, por mais que eu esteja vendo uma recepção majoritariamente positiva, a questão é a mesma: precisava? De novo?

No quinto filme, acompanhamos a tomada da tecnologia sobre os brinquedos, como as crianças estão se entretendo mais por telas, celulares, tablets, videogames e tudo mais, e deixando de lado os brinquedos, o ato de brincar. Nisso, quando Bonnie recebe o tablet Lilypad (Greta Lee) de seus pais, Jessie (Joan Cusack) decide tomar iniciativas contra a tecnologia para que Bonnie continue brincando com ela e os brinquedos, mas nisso coisas ruins acontecem. Com isso, Woody (Tom Hanks) retorna para ajudar Buzz Lightyear (Tim Allen) em uma missão de resgate, não só de Jessie, mas também da infância. Enquanto isso, um exército de Buzzes high-tech decide procurar pelo Comando Estelar, e ao ver a estrela de xerife em uma foto de Jessie, decidem ir atrás dela. É um tema muito pertinente essa questão das crianças e da exposição à telas, realmente é bizarro ver de perto como as crianças agem hoje em dia com celular e outras telas, vem se perdendo muito essa questão de brincar. O novo "brincar" é jogar Roblox, Free Fire ou qualquer uma dessas coisas, é difícil de ver crianças brincando com brinquedos apenas, e o filme retrata desse assunto até com bastante maturidade, pois não é um ativismo extremista dizendo: "Galera, deixem as crianças sem tela! Vão viver a natureza", mas ao mesmo tempo consegue trazer uma mensagem de como é legal sair de dentro de casa e brincar no pátio de vez em quando ou fazer amizades sem ser por um chat.

Essa questão de brincar torna-se o ponto central do filme, gerando até a pergunta: o que exatamente é brincar? É só com brinquedos? É pura imaginação? Será que jogos e celulares também não são espécies de brincadeiras para as crianças? E isso é muito bem tratado, é a parte do filme que a Pixar foca nos pais, e honestamente é algo que eu sinto falta na Pixar, que é equilibrar bem o filme para o público infantil e deixar bom também para o público adulto, pois nos últimos anos, venho notando que isso vem sumindo e a parte que fala com os adultos não se destaca tanto, com exceção de "Divertida Mente 2" (2024) e toda a questão de ansiedade, de saúde mental que o filme retrata, e que me pegou bastante quando eu vi o filme, os outros, acho que o último que me pegou foi "Soul" (2020), então faz um tempo que eu não me conecto muito com a Pixar, e aqui eu continuo não me conectando com algo novo, é Toy Story, eu vejo desde sempre, mas pelo menos já traz um assunto que me intriga, assim como o Divertida Mente 2, mas aqui sem o mesmo brilhantismo, sem a mesma sagacidade, inclusive, muitas vezes no começo do filme, é autoexplicativo até demais, daquele tipo de tratar o espectador como idiota, claramente inserção ordenada pelo estúdio, porque é de um ritmo muito "TikTok", que acaba parecendo um corte de final explicado do filme dentro do mesmo. 

Aqui há uma subversão de trocar o protagonista aqui, pois sempre foi o Woody, todos os filmes são jornadas do Woody querendo ou não, e aqui eles mudam o foco para a Jessie, que, honestamente, acho que talvez seja o maior acerto desse quinto filme. Primeiro, dar um ar de novidade, trazer algo novo, faz muito mais sentido ser a Jessie a líder dos brinquedos com a Bonnie, essa questão da conexão, da identificação, é uma personagem feminina, e acho que isso também contribui, e outra porque o arco do Woody foi encerrado, então já não faz mais sentido acrescentar mais coisas significativas para ele, enquanto o Buzz teve uma espécie de filme solo que não deu muito certo, não é lá um bom filme também, então meio que está manchado, e aqui o arco dele é resumido em querer pedir a Jessie em casamento, então tudo o que tem de principal aqui é relacionado à Jessie de alguma forma. Eu gosto de como eles trazem de volta o passado da Jessie, levam de volta ela para o rancho em que a sua dona original vivia, como ela é obrigada a enfrentar o passado dela de frente e como isso é o que gera o grande baque emocional do longa, o medo dela de ficar para trás novamente, como ela ainda é traumatizada de ter sido abandonada, mesmo décadas depois de sua dona ter deixado-a de lado. E eu estava imaginando que eles iam levar ela de volta para a fazenda, ter um reencontro com a dona antiga, ela sendo mãe ou avó, mas fizeram algo ainda melhor que engrandece ainda mais o impacto emocional na personagem e, consequentemente, no espectador. Realmente um acerto do longa.

Agora, o Woody e o Buzz são meio alheios ali, o filme cai toda vez que o foco volta para o núcleo deles. Primeiro que eu acho que nem de Woody precisava aqui, já que ele teve seu arco encerrado, e aqui ele tem a trope de estar ficando calvo (sim, a calvície chegou até nos brinquedos, é realmente uma tristeza, um evento canônico masculino) e dele ser velho, mas é praticamente só isso, tudo o que ele faz de útil na trama poderia ter sido feito por outro personagem. O Buzz tem até essa subplot bacaninha do casamento, mas é só isso também, se resume à isso. Os outros personagens são totalmente escanteados, o Slinky, o Rex, o Porquinho, o Sr. Cabeça de Batata e até o Garfinho, acho que se juntar esses todos não devem dar dez linhas de diálogo no longa, o que é uma pena, já que eles são parte do porquê essa franquia funciona tão bem, esse núcleo dos brinquedos é muito forte e ver eles ficando totalmente de lado é triste. Inclusive não tem mais os aliens do Pizza Planet, senti falta deles, vou ser honesto que não me lembro se algo rolou com eles no quarto filme, porque eu só vi uma vez na época, mas eu fiquei me perguntando onde eles estavam. Tem coadjuvantes novos legais, que são os bonecos tecnológicos que ajudam a Jessie na subtrama da fazenda, aquele trio ali é engraçado e faz bem a função na trama de trazer o equilíbrio nessa questão da tecnologia, de não vilanizar e de mostrar que para as crianças aquilo é, em partes, tão brincadeira quanto brincar com os brinquedos.

Mas, a vilã, o tal tablet Lilypad, é bem qualquer coisa. Não é ruim, propriamente, na realidade funciona bem como um artifício narrativo, mas, é basicamente a mesma coisa da Ansiedade em "Divertida Mente 2", o arco e a utilização é bem parecido, e até a mensagem é meio parecida, eles não precisam derrotar o antagonista, é encontrar uma solução de convivência, e nisso acaba que é meio repetitivo. Essa questão dos antagonistas é algo que vem sendo meio fraca nos filmes da Pixar ultimamente, parece que eles às vezes tem medo de fazer um vilão mau de verdade, eu falo isso desde "Elementos" (2023), há três anos atrás eu estava avisando que isso ia era um problema, eles querem muito essa coisa do vilão desconstruído, do vilão incompreendido, e acaba que isso atualmente é muito mais batido do que qualquer vilão genérico que é mau por ser mau. Mas uma coisa que eu gostei foi a subplot dos Buzz Lightyear high-tech, essa leva de bonecos do Buzz que busca pelo comando estelar. É realmente tão relevante para a trama? Não, mas todas as cenas, todas as gags, todos os momentos envolvendo essa subplot são bons, e o jeito que se amarra na história principal, apesar de demorado, ainda funciona muito bem, e é engraçado, é até massa como é feito, e encerram bem essa trama na cena do meio dos créditos. E outra coisa legal, outra novidade, é mudarem o estilo de animação, deixar algo mais próximo de um 2D, na cena em que os brinquedos são utilizados pelas crianças nas brincadeiras, achei muito legal ver esse experimento visual, diferencia do que era anteriormente, lembra até o clássico início do terceiro filme.

Enfim, a discussão do "precisava ou não?", para mim, se aplica bem também à "Toy Story 5", já que assim como o quarto filme, é bom, mas não acrescenta nada à franquia, ao legado dessa franquia, já que a história principal está nos três primeiros filmes e o quarto e quinto capítulo para mim são a mesma coisa: aventuras episódicas dos personagens, que calham de ser em longa-metragem. Para mim, esses filmes não estão muito distantes daqueles curtas que foram lançados pela Pixar após o terceiro, aqueles que tinham a festa do Rex, o Buzz rebaixado do fast food, o casamento da Barbie, para mim é a mesma coisa, acontece que esses são filmes de quase duas horas. Inclusive, creio que o quarto filme, na minha visão, acrescenta bem mais ao legado de Toy Story do que o quinto, porque o quarto tem um personagem icônico e muito massa que é o Garfinho. Aqui, nesse, tem o tablet, tem o Rolinho, mas nenhum deles é realmente memorável, é mais legal pelo conceito do que pelo resultado. Ainda sim, é um filme muito legal pelo protagonismo que dão para a Jessie, o arco dela é muito bom, muito emocionante. Tem ótimos momentos de comédia, tem uma subplot muito massa do exército de Buzz e exercícios de direção e animação que fazem o filme valer a pena assistir, além, é claro, da calvície do Woody, que é a piada mais brilhante do filme, literalmente.

Nota - 7,0/10

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