Crítica - Coyote vs. Acme (2026)

De uma jornada caótica quanto ao lançamento até a aclamação.

Depois de anos que foi a saga de lançamento de "Coyote vs. Acme", finalmente esse projeto viu a luz do dia, e olha que a jornada foi realmente longa. O filme originalmente foi escrito pelo James Gunn, baseado num artigo jornalístico humorístico homônimo lá dos anos 90, e foi aceito pela Warner lá em 2015. Após algumas reformas no roteiro, mudanças na direção, escalação de elenco e filmagens, tudo estava pronto para o filme ser lançado em 2023, até que, sem mais nem menos, foi removido do calendário da Warner por David Zaslav, presidente do estúdio, e seu ego gigante de não aceitar um projeto que ele não aprovou, e seria não só cancelado, como apagado. Entretanto, após uma campanha gigante do elenco, a Warner decidiu vender o longa e ele foi adquirido pela minúscula Ketchup Entertainment, que conseguiu lançar o filme agora em 2026. Cara, e que bom que foi lançado, porque esse filme é muito bom, realmente todos estavam certos em ficarem indignados com o cancelamento, pois aqui temos um filme que não só é divertido, engraçado e nostálgico, mas que também é inspirador, que também passa uma mensagem muito bacana e te deixa com um sentimento bom após os créditos subirem. 

Após décadas de tentativas fracassadas de capturar o Papa-Léguas e sempre se ferrar no final, Wile E. Coyote (Robert Pattinson - que não, não é o Robert Pattinson de verdade o interpretando, até porque ele não tem nenhuma fala durante o filme, mas esse meme dele interpretar o Coyote é genial) decide processar a megacorporação Acme por todo esse tempo de frustração e com isso, vai atrás do advogado Kevin Avery (Will Forte), dono de uma advocacia de pequenas causas em Albuquerque, que se mete nesse processo e acaba tomando rumos muito maiores do que ele jamais imaginou para a sua carreira, sendo ajudado por sua sobrinha Paige (Lana Condor) a tentar buscar provas de que a Acme realmente está escondendo algo que impacta diretamente nas investidas do Coyote. Entretanto, a Acme não deixará barato, e o advogado chefe da empresa, Buddy Crane (John Cena) fará de tudo para vencer as acusações do Coyote e manter a honra (nem tanta) e a dignidade (não muita) da empresa. É uma premissa muito interessante, não tem como você não ficar instigado por tudo o que está acontecendo, até porque é um filme vívido, a história vai rolando na tela e no fundo tem muita coisa acontecendo, pegando bem o espírito desse subgênero de animação misturado com live action, que cria um clima muito gostoso de se assistir.

O filme tem aquela mesma ideia de outros que é fazer essa mescla de live action com as animações, já é a quarta ou quinta vez que acontece com os Looney Tunes, e aqui é essa história do Coyote processando a Acme, que é a empresa lá do desenho, um detalhe que talvez se você tenha visto somente na infância, nem deve se lembrar direito o que é Acme. E essa coisa de Coyote e Papa-Léguas é algo muito intrínseco na nossa vida como sociedade também, todo mundo sabe o que é Coyote e Papa-Léguas, todo mundo já assistiu, até eu que sou mais novo, porque eu lembro que eu via no SBT quando eu era criança, passava numa sessão do Sábado Animado, eu acordava muito cedo e via, junto com "Super-Amigos", "Scooby-Doo" clássico e muitos outros desenhos (e é engraçado porque, na história, existem menos de 50 episódios do Coyote, mas a gente viu tantos que parecia um milhão), fui tendo uma nostalgia disso já no começo do filme, com a tentativa de captura do Coyote (cena fantástica, inclusive, muitíssimo bem dirigida) e depois que dá errado novamente, começam a rolar os flashbacks, o Coyote encarando os produtos da Acme e mostrando os episódios, e eu me lembrando de ver esses episódios, uma nostalgia muito gostosa, até porque era um desenho simples, engraçado, universal, sem diálogo nenhum, mas que por algum motivo te prendia. Então, aqui ter essa história, trazendo essa questão do Coyote e transformar isso tanto numa metáfora usando o mito grego de Sísifo, quanto uma crítica aos testes de produtos em animais, é uma sacada de gênio, que funciona muito bem.

Quem é Sísifo na mitologia grega? Sísifo, para quem não sabe, é um homem que tentou enganar a morte e despertou a raiva de Zeus, e Zeus decidiu castigá-lo com o trabalho de levar uma pedra até o topo de uma montanha, e sempre que ele chega ao topo, a pedra rola morro abaixo de novo, e ele é obrigado a levá-la até o topo mais uma vez, e assim será por toda a eternidade. O que é basicamente a metáfora perfeita para o que é o Coyote ao longo de toda a história, já que ele parece estar destinado a caçar o Papa-Léguas, ele poderia querer qualquer pássaro, mas ele quer única e exclusivamente aquele Papa-Léguas, e ele sempre chega perto, mas o destino sempre dá um jeito de fazê-lo se ferrar. E isso acaba sendo trabalhado pelo filme como uma metáfora para nós, seres humanos, em nossas vidas, pois todos vivemos uma espécie de castigo de Sísifo, que são nossas rotinas e o esforço tremendo que fazemos dia após dia para chegar ao topo da montanha, mas que a pedra acaba rolando lá para baixo no dia seguinte e acordamos tendo que empurrá-la novamente. O jeito que o filme trabalha isso é muito bom, pois pega essa questão do Coyote com o Kevin, o Coyote destinado a rolar a pedra de falhar em suas capturas ao Papa-Léguas diariamente, assim como Kevin, que é um advogado preguiçoso, que quando tem uma crise de consciência causada não só pelo Coyote, como pela Paige, de que o esforço faz parte do caminho, começa a rolar a pedra novamente também, e essa metáfora conversa muito bem com o público, traz uma mensagem muito bacana e reconfortante quando o filme acaba.

Para mim, geralmente o maior problema desses filmes que misturam animação com live action é justamente o humano que colocam para contracenar com os desenhos, pois muito deles não tem muita graça. Eu trouxe aqui alguns anos atrás o texto sobre o excelente "Tico e Teco: Defensores da Lei" (2022), que é um filme nessa pegada, e lá naquele texto eu até elogio a menina que contracena com os protagonistas, e realmente não é ruim, mas é indiferente. Aqui, boa parte do filme vem dos personagens humanos e funciona muito bem, o personagem do Kevin é muito bem construído. Ele é uma espécie de Saul Goodman, até o fato do filme se passar em Albuquerque lembra isso um pouco, mas ao invés dele ter a lábia e o carisma do Saul, ele é totalmente preguiçoso, ele já não está mais nem aí para nada, ele é só um advogado conformado com a derrota que fica fazendo acordos e ganhando pequenas quantias, até que quando surge o Coyote e ele tenta fazer a mesma coisa, o Coyote acaba fazendo com que não, e isso obriga ele a voltar ao trabalho. Eu gosto do Will Forte, acho ele um ótimo comediante, e aqui ele traz muito bem esse cara largadão, que só relaxa em meio às casualidades da sociedade, que só quer fechar esses acordos e ir para a casa (ou o que ele chama de casa, porque ele é tão preguiçoso que mora num hotel de beira de estrada, já que tem preguiça de pagar um aluguel), e é justamente o Coyote que, indiretamente, faz ele dar valor, não só ao seu trabalho, mas a ele mesmo como advogado e até como pessoa, e como ele lentamente vai sendo construído, no início você pensa que ele vai ser só mais um personagem rabugento e esquecível, mas ele é tão bem trabalhado e no final você está tão apegado a ele, que é através do que acontece com ele que toda a mensagem do filme faz sentido.

Isso também se alastra ao próprio Coyote, que numa performance de voz perfeita do Robert Pattinson, acaba entregando esse personagem que é muito bom aqui. Primeiro que eu gosto muito de como existe uma subversão de você gostar do Coyote, claro, tem gente que torcia para ver o Coyote capturando o Papa-Léguas e outros que torciam para ele se ferrar, mas ele é basicamente o antagonista no geral. Aqui, ele é um personagem frustrado, sem esperança, décadas de falhas contra o seu objetivo, mas ele é tão carismático, tão bem construído, que você se apega a ele. Aqui ele é meio ingênuo também, mas sem abandonar aquele lado dele de ser o predador, de planejar a sua captura, porque ele é ardiloso, quando vem uma das revelações do filme de mostrar o que ele realmente quer, e depois a revelação do plano completo no final te causa um impacto emocional, porque é de uma inocência e que condensa bem todo o arco trabalhado ao longo do filme, e você está tão imerso na história, que você fica impactado por aquilo que está em cena. E ele está sempre fazendo alguma coisa, ele é sempre ativo, os humanos conversando em primeiro plano e lá atrás está o Coyote fazendo alguma coisa completamente nada a ver, e isso é muito bem pensado, muito bem dirigido, deixa o filme vívido e dá o ar de desenho clássico necessário até em momentos mais sérios. O jeito que ele se comunica também, só por placas ou através de ações, ele não tem falas, mas essa atividade dele deixa ele muito massa de se acompanhar.

Também vem toda a relação dele com o Papa-Léguas, que aqui também é subvertida e eles fazem você reimaginar toda aquela relação deles de rivalidade para uma amizade, uma conturbada e esquisita, mas ainda é uma amizade. E é muito bonitinho como eles desenvolvem isso, como eles desmistificam a perseguição como um predador em busca da presa e transformam isso no objetivo de vida dos dois. O objetivo do Coyote é correr atrás do Papa-Léguas, enquanto o do Papa-Léguas é fugir do Coyote e deixar eles se ferrarem. Eles são codependentes, eles dependem um do outro para a vida deles ter sentido. Além dele, outros personagens dos Looney Tunes tem algumas participações bem legais, alguns tem participações mais contidas, como o Gaguinho, que aparece para algumas piadinhas de vez em quando, e nisso funciona. O Piu-Piu tem uma participação muito massa, apesar de pequena, porque ele é usado pela Acme como espião para espionar o Coyote, meio que na base da ameaça, mas é justamente engraçado porque é o Piu-Piu naquela posição séria de espião acompanhado de um mano com cara de marginal. O Patolino aparece em alguns momentos através de flashbacks, mas na cena que ele aparece em si é muito engraçado, uma das piadas que eu mais ri no filme. E claro, o GOAT, o Pernalonga, que tem uma cena, mas é a melhor cena do longa na minha visão, que é uma referência ao clássico "Todos os Homens do Presidente" (1976), em que ele aparece como informante, e a participação dele é brilhante, o humor dele misturado com a tensão do momento é sensacional, tem uma construção para a aparição dele e depois tem ele sendo quem resolve a coisa toda no final, num Deus Ex Machina que é a cara de um personagem como o Pernalonga, então funciona muito bem narrativamente.

Vendo o filme, também não me surpreende que ele foi um escolhido do Zaslav para ser cancelado, não pela qualidade, obviamente, mas pelo jeito que a Acme é retratada no desenrolar do longa, acho que talvez a carapuça tenha servido para a Warner de algum jeito. A empresa é representada mais centralmente por duas figuras, o CEO que é o Frangolino, e o advogado-chefe da empresa, o Buddy Crane, interpretado pelo John Cena, e ambos trazem coisas interessantes ao filme. O Frangolino, que é um desenho, mas ele se vê numa posição de superioridade tão grande em comparação aos outros desenhos, que ele se vê quase como um humano, o que é muito real, convenhamos, o cara que se esquece de onde ven e ainda usa isso para sua autopromoção e a de sua empresa. Enquanto o Buddy Crane é tudo o que o Kevin não é, ele é o chefe de advocacia de uma grande corporação, ele é bem sucedido, tem uma imagem a ser mantida na mídia, e isso torna muito mais interessante já que os dois estudaram juntos na faculdade, então torna-se algo meio que recorrente, já que a maior parte dos casos de Kevin são casos menores contra a Acme, e nisso a gente vê uma representação mais mundana do Coyote e do Papa-Léguas através deles, onde a busca do Kevin, não pelo Crane ou pela Acme, mas pelo respeito e a seriedade que ele queria como advogado, que é recuperada ao longo do filme, torna-se semelhante ao castigo de Sísifo vivido pelo Coyote, ele percebe que a persistência nisso é necessária. E voltando rapidamente ao Frangolino, que é um desenho, e ele usa os produtos de desenhos da Acme para testes, é uma ótima metáfora e uma ótima crítica também aos testes de produtos em animais, que nem eu falei antes, já que mostra ali em flashes o quão cruel isso é e o quanto a Acme vê aqueles seres, que são reais dentro do universo do filme, como inferiores, ou frágeis, e literalmente os usam para testes do produtos. É sútil, é bem trabalhado de uma forma que você consegue perceber, e é uma mensagem importante também sobre algo que infelizmente continua acontecendo nos dias de hoje.

Apesar de toda a campanha contra o seu cancelamento e um hype criado através disso, creio que mesmo assim era difícil imaginar que "Coyote vs. Acme" seria tão bom quanto realmente é. É um deleite de filme, muito agradável. Tem comédia, tem ação, tem desenho com live action e, incrivelmente, é um filme inspirador e emocionante. Quem diria que eu me divertiria tanto em um filme de tribunal dos Looney Tunes e ficaria genuinamente mexido? Pois é, o cinema tem dessas, e aqui tivemos uma grata surpresa. Talvez não seja tão surpresa, roteiro da Samy Burch, que é uma roteirista em alta ultimamente, com argumento do James Gunn, que apesar de suas diversas decisões questionáveis nos últimos tempos, ainda é o James Gunn, e um ótimo elenco, tanto dos personagens dos Looney Tunes quanto dos humanos. Nunca pensei que gostaria tanto do Coyote e teria tanto carinho por ele, mas incrivelmente, ele é um dos personagens mais bacanas do ano até o momento. No geral, um filme engraçado, divertido, entretenimento puro, com boas mensagens, críticas bem feitas, e também nostálgico e reconfortante. Realmente, valeu a pena isso tudo para ser lançado.

Nota - 8,0/10

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