Crítica - O Drama (The Drama, 2026)

Não sobra nada para o betinha Holland.

Cá estou, atrasado mais uma vez, para falar de um grande filme desse ano, que foi lançado lá no início, mas eu só vi agora, e como eu sempre digo por aqui, antes tarde do que nunca, então bora falar sobre ele. Um filme que ficou mais conhecido amplamente pela campanha de marketing dele, onde as nossas estrelas Zendaya e Robert Pattinson agiram como seres humanos normais e civilizados por terem respeito aos seus respectivos cônjuges na vida real ao invés de forçar uma barra que diversos outros atores forçam quando estão promovendo um filme em que interpretam um casal, esse ano mesmo, a casada Margot Robbie estava forçando uma barra tremenda na divulgação do seu "O Morro dos Ventos Uivantes", então é bizarro que isso tenha que ser destacado, mas é um dos motivos pelo qual o filme ficou famoso. Claro, além de contar com duas das grandes estrelas de Hollywood atualmente, com o Pattinson que vem numa sequência absurda, e a Zendaya que cada vez mais vem se provando uma excelente atriz e muito versátil, e aqui não foi diferente, confesso que me surpreendi muito positivamente com o resultado.

O filme conta a história de Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya), um casal que se ama muito e está prestes a se casar. Tudo certo, até que em um momento na semana que antecede o casório, durante uma dinâmica com seus padrinhos, de cada um revelar a pior coisa que já fez, Emma acaba revelando que quando tinha quinze anos, ela planejava fazer um atentado à sua escola com uma arma, revelação que, obviamente, choca a todos. Com isso, Charlie entra em um dilema e começa a repensar tudo que eles viveram, passaram e, a se questionar se tudo que ele viveu com ela foi uma mentira e se ela realmente não é quem ele pensava que fosse. O filme é dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, que alguns anos atrás fez "O Homem dos Sonhos" (2023) com o Nicolas Cage, um filme que eu deixei passar à época e até hoje acabei não assistindo, então esse de fato é o meu primeiro contato com o cinema desse cineasta, e eu gostei, tem uma coisinha ou outra ali que no começo não me pegou muito, mas eu gosto como ele filma algumas coisas, como em diversos momentos ele põe a câmera na cara dos atores para criar um sentimento de pressão, de desconforto, de vergonha, ou como ele cria uma mise-en-scène poderosa que diz muito só com o enquadramento e a posição dos atores dentro do quadro, então é um filme que tem muito sendo contado na camada superficial, quanto em camadas mais inferiores.

Borgli tem uma direção, no mínimo, envolvente, e eu curti como ele usa a montagem a favor do seu storytelling. Era isso que no começo eu tava pensando: "ih, lá vem cinema de autor diferentão da A24 para o cara exibir que ele sabe fazer tal coisa", mas ao longo do filme, como ele vai usando isso diversas vezes para contar em vários momentos visualmente aonde a mente daqueles personagens estão - majoritariamente onde a do Charlie está, e isso vai criando narrativas visuais que são muito bem construídas. Eu gosto muito de como ele vai desenrolando tudo isso, como ele vai transformando o filme aos poucos, como sai da discussão pré-casamento, para toda essa questão da revelação e acaba virando essa jornada do Charlie tentar entender tudo isso, de descobrir o passado da sua noiva, de tentar buscar se algo era genuíno, se ele viveu uma mentira, ou ambos. Que nem eu falei, esse filme é quase um besouro rola-bosta, onde começa numa bosta e a cada minuto que passa ela vai ficando cada vez maior, num sentido bom, pois chega a um ponto que a sequência de acontecimentos vai ficando tão inacreditável e, de certa forma, constrangedora, que eu já estava tão envolvido na trama, que eu só conseguia levar as mãos aos olhos incrédulo com tanta vergonha alheia que o filme ia trazendo.

Eu gosto de como o filme trabalha essa questão do "qual a pior coisa que você já fez?" e especialmente essa questão de tiroteios em escolas, colocar isso pela perspectiva do Charlie, que é um personagem britânico, deixa a discussão melhor ainda. A Emma confessa que só não fez porque houve uma sequência de fatores que fez com que ela desistisse, e logo depois vemos nela ainda adolescente um arrependimento, que eu julgo ser genuíno, não sei como está a discussão ao redor disso entre o pessoal que viu o filme, mas mesmo sendo genuíno, ainda vem a velha questão: ela ainda assim pensou em fazer aquilo, e ela quase fez aquilo, as pessoas mudam desse jeito assim ou não? E é isso que o filme vai tentando criar através dos pensamentos do Charlie. Eu gosto como o filme tem uma pitada de crítica social e humor negro quando trata desse assunto, primeiro porque ridiculariza a menina adolescente pensando nisso quando necessário, mostrando ela tentando gravar um vídeo para ser passado após o massacre, e aí sempre dando algum problema, ou ela não apertou play, ou o PC dela deu tela azul, ou alguma coisa assim que tira um pouco da seriedade. Também gosto de como o filme critica isso sendo comum nos Estados Unidos, e mostrando isso através de um ponto de vista de um personagem estrangeiro acaba que cria uma crítica muito inteligente, onde uma coisa que não deveria ser comum, as vezes lá nos Estados Unidos chega a ser banalizada pela justificativa de "acontece toda semana", o que chega a ser inacreditável.

Uma das coisas que funciona muito bem é o elenco, acho que ter dois atores desse nível que Pattinson e Zendaya vem mostrando ultimamente, não só eles, como todo o elenco é muito bom, um trabalho de casting excepcional, mas que, claro, passa muito por esses dois também. O Robert Pattinson é excelente, ele cria esse personagem do Charlie que é um cara muito tranquilo, muito pacato, de certa forma até ingênuo, é um cara genuinamente normal, que tem o emprego dele, é um britânico vivendo nos Estados Unidos, ele é naturalmente meio deslocado, e ele é sem jeito, meio trouxão mesmo, e ele vai passando essa vibe de cara gentil, apesar de esquisito, tanto que na hora lá de revelar a pior coisa que já fez ele nem sequer tinha nada a falar, ele conta uma lorota de que ele fez cyberbullying quando era criança, mas eu acho que ele inventou na hora ali, e nessa mesma dinâmica, quando vem a revelação da Emma, como isso abala ele imediatamente, e vai impactando claramente nele, é onde a atuação do Pattinson se destaca, porque é onde ele ainda ama ela, mas ele fica em conflito por isso, ele já não sabe se ele gosta dela de verdade ou de uma versão dela, ele fica martelando na cabeça dele diversas coisas, essas que são muito bem utilizadas pela montagem, e nisso ele vai ficando encucado nos próprios pensamentos, vai agindo no impulso, começa a se perder, e essa sequência de vergonha alheia que o filme cria é totalmente condizente com o tanto de coisa que esse mano faz, ele inclusive gerando mais constrangimento ainda, deixando cringe (ainda se fala cringe? É um termo em desuso, deixa quieto), e o Pattinson atuando todo inseguro, todo atrapalhado, ele é mesmo um camaleão, cara, esse cara é um gênio, a interpretação dele aqui é brilhante.

Já a Zendaya também está excelente, mas diferente do Pattinson, a performance dela é mais quieta, mais contida, quase silenciosa - o que é quase uma ironia, já que a personagem dela é surda de um ouvido. Vem toda essa questão dela e seu passado, existem os flashbacks mostrando ela adolescente, onde ela é interpretada pela Jordyn Curet (muito bem inclusive, no pouco tempo de tela que tem), e aí existe todo o backstory dela de sofrer bullying, de ter essa ideia, de só não fazer por uma série de coincidências que fez ela desistir, e aí depois ter toda a virada, dela virar ativista contra o armamento, então existe esse amadurecimento dela que a gente vê, que nem eu falei anteriormente, eu considero isso genuíno, mas eu sou um espectador vendo de fora, para os personagens que estão lá vendo essa história, o julgamento é justo, é necessário, e como ela vai engolindo esse julgamento todo a seco é onde a atuação da Zendaya se destaca, porque ela tem essa performance quieta, bastante introspectiva, mas que ela vai engolindo tanta coisa em silêncio, que parece que vai se construindo para algum momento de explosão que nunca chega, nem mesmo quando parece inevitável, e isso para mim é muito mais difícil para um intérprete do que fazer uma cena dela tendo a explosão e gritando que nem maluca, a explosão dela é a mais quieta possível, levantar e ir embora, e isso traz muito mais veracidade à personagem do que qualquer outra coisa.

Como eu disse, todo o elenco é muito bom, não só os dois protagonistas, apesar deles serem os destaques, existe essa rede de personagens coadjuvantes que agregam à história de um certo modo. Tem a Misha, interpretada pela Hailey Benton Gates, que é a colega de trabalho do Charlie, e ela tem algumas cenas ali, todas muito boas, mas o impacto narrativo que a personagem dela causa é tremendo, e gera uma das sequências de vergonha alheia que mais fez eu querer me esconder em algum lugar num filme em muito tempo, o timing dela para o constrangimento é excelente. Outro personagem bom é o padrinho do Charlie, o Mike, interpretado pelo Mamoudou Athie (e desculpa, mas eu simplesmente não posso deixar em branco o cara que tem "Mamou" e "dou" no mesmo nome, com todo o respeito, mas eu ri), e ele tem meio que a função de ser o mensageiro do caos, praticamente toda a desgraça que rola ali passa por ele como padrinho, pois ele é quem orquestra toda a recepção, toda a festa, e a reação dele aos momentos constrangedores é crucial, além de ser o melhor amigo, então ele é presente em todo o filme, inclusive sendo ele o catalisador da revelação porque a mulher dele quem revelou que a pior coisa que ele já fez foi usar a ex-namorada como escudo humano para se proteger de um cachorro, então a trama toda só se desenrola por culpa dele. E tem a mulher dele, a Rachel, interpretada pela Alana Haim, que essa aí sim é o maior ponto da vergonha alheia possível, ela que é a madrinha, mas é quem mais fica irritada com a revelação devido a tragédias familiares envolvendo massacres, e ela é conscientemente a causadora de muito caos, o discurso dela no casamento é um dos momentos de maiores vergonhas que eu já senti vendo um filme, e a atuação da Haim é maravilhosa, porque traz esse desconforto só dela estar em cena, as expressões dela, os trejeitos dela, cara, cria muito bem tudo isso.

Dito tudo isso, dá para se chegar na conclusão de que "O Drama" é um filme chocante, constrangedor e que gera ótimas discussões sobre diversos assuntos, sobre relacionamentos, sobre toda essa questão da cultura de armas, de massacres escolares, e que no geral, é um ótimo filme dentro do que se propõe. Se propõe a ser uma série de eventos que querem fazer com que o espectador queira se enfiar debaixo da Terra e se esconder por duas semanas, e foi exatamente a sensação que eu fiquei. Cara, que pedrada, é um combo de bosta rolando, que nem a comparação do besouro rola-bosta que eu fiz, que eu nem tava botando tanta fé assim, tava achando um filme só ok, mas à medida que ele vai passando ele vai dobrando a aposta e ficando cada vez mais difícil de ignorar se importar com o que está acontecendo. É um filme muito bom mesmo, até o momento um dos melhores do ano, com duas atuações de alto nível dos protagonistas, e um sentimento agridoce quando o filme acaba por tudo o que acontece, apesar de uma cena final bonitinha, ela não compensa toda a sequência de desgraça que veio anteriormente. Filmão.

Nota - 8,0/10

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