Crítica - A Odisseia (The Odyssey, 2026)
Christopher Nolan e seu projeto de ego.
Três anos após conquistar o mundo com o seu bom "Oppenheimer" (2023), vencer sete Oscars e fazer uma das cinebiografias mais lucrativas de todos os tempos (sobre o malandro que criou a bomba atômica, fazendo mais dinheiro que o filme do Freddie Mercury), Christopher Nolan decidiu voltar, dessa vez um pouquinho mais diferente do que estamos acostumados a esperar dele, fugindo totalmente dos seus filmes de suspense, de ficção científica e até dos filmes históricos sobre a Segunda Guerra Mundial, e dessa vez, ele não só decide fazer mais um filme, ele decide testar todo o seu ego e adaptar uma das maiores obras de todos os tempos, "Odisseia", de Homero, uma das bases de toda a mitologia grega, e também pegando diversos elementos da obra que vem anteriormente, que é "Ilíada". Não me levem a mal quando falo que é para testar o ego do Nolan, não sou um hater dele, mas é que, convenhamos, todos sabemos que o ego dele é do tamanho do planeta e, olhando em retrospecto, é muito claro que ele iria fazer algo desse tipo, onde a escala é maior, até porque não se trata só de ego, é também de se testar, e o Nolan querer se testar num filme mais fantasioso e épico (por mais que ele já tenha filmes que podem ser considerados épicos em escala) é, no mínimo, interessante, mas ainda sim, vendo o filme, fica com uma impressão que é mais por ego mesmo, já chego lá.
Acompanhamos a jornada de Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca e herói da Guerra de Tróia, que acabara se perdendo após o fim da batalha e entra em uma trajetória épica em busca de voltar para sua casa. Enquanto isso, na sua cidade, sua rainha, Penélope (Anne Hathaway) aguarda sua volta, enquanto o palácio se enche de pretendentes, e o filho do casal, Telêmaco (Tom Holland) acredita também que seu pai ainda está vivo. É uma história clássica, acredito que todo mundo deve ter aprendido sobre nas aulas de literatura da escola, ou, no mínimo, assistindo o clássico "Bob Esponja: O Filme" (2004), que é uma adaptação da história. Acaba que sendo uma base de uma mitologia, muita coisa que acontece aqui necessita de um tom um pouco mais fantasioso, um pouco mais aberto à interpretações mais fantásticas, mas acontece que caiu na mão justamente do diretor que preza por realismo até onde não necessita, e aí o filme já começa com um letreiro dizendo: "em um tempo de aparente magia", ou seja, ele quer tanto justificar algo mais pé no chão que ele precisa deixar claro que até a magia é aparente. Claro, Nolan dá sua visão à história, e é mais interessante do que aparenta ser à primeira vista, mas também nerfa o próprio potencial em alguns momentos, existindo adaptações e retratações que funcionam muito bem, e outras que são meio decepcionantes.
Eu tenho diversos problemas com o cinema de Christopher Nolan, no geral eu ainda gosto mais do que desgosto de suas obras, mas um dos meus principais problemas com elas são justamente que o Nolan é o inimigo da ambiguidade, ele não deixa nada para o espectador pensar, ele escreve seus roteiros para os personagens ficarem falando e falando enquanto estão descrevendo a cena que está por vir na sequência e isso é o que mais me incomoda, sei lá o que deve se passar na cabeça do Nolan para isso não mudar nunca, é uma convicção dele que eu já falei que eu considero meio boba, e aqui, vocês acham que foi diferente? É claro que não. Os primeiros quarenta minutos são o mais puro suco de explicação e exposição existente, o pontapé inicial da história já é com eles explicando coisas que serão mostradas ao longo do filme e soa de um jeito muito falso, ninguém conversa daquela forma nem no período antes de Cristo, e, tudo bem, às vezes algumas formas de exposição seriam necessárias, mas é ser o tempo inteiro que me incomoda, até porque deixa esse início chato, monótono, eu peguei no celular para ver o horário umas cinco vezes e não tinha dado uma hora de filme ainda. Eu sei que tem gente que gosta, mas esse tipo de storytelling não faz muito o meu estilo.
Entretanto, quando vai aos poucos entrando na odisseia em si, o filme vai gradualmente melhorando aos poucos, ele tem um primeiro ato fraco, um segundo ato muito bom e um terceiro ato excelente na minha visão. Eu gosto de como o Nolan vai construindo essa jornada e o que vai custar àqueles homens que estão juntos de Odisseu ali, pelo o que eles vão passando, pelas jornadas que Homero descreveu. Tem algumas que eu gosto e outros que eu acho que o Nolan arregou propositalmente em prol do realismo, e algumas retratações dele me incomodam, enquanto outras me agradam. A cena do Ciclope, por exemplo, a primeira grande parada de Odisseu, é muito bem feita, muito bem construída, é o primeiro momento que eu fiquei realmente envolvido com o filme. Outro momentos, quando eles encontram os gigantes, é um ótimo momento de ação que existe no longa, inclusive ficou ainda mais engraçado com os detalhes de bastidores que saíram recentemente, com a dublê do Matt Damon sendo uma mulher de 1,50 com os gigantes sendo caras de 2,15 de altura, fica até engraçado quando você pensa nisso. Um segmento que eu gostei mais do que eu imaginei foi o da feiticeira Circe (inclusive, que fique registrado que o Nolan adaptou a Circe para os cinemas antes da DC, o que dá para ser considerado mais uma vergonha dessa empresa Jim Carrey), que tem um toque mais místico, mas que combina com esse tom do Nolan e cria algo ali realmente macabro, essa parte toda é muito boa, muito bem dirigida.
Agora, tem umas ali que, como eu falei, o Nolan dá uma arregada em prol do realismo. A primeira é a retratação do Submundo, quando Odisseu precisa falar com Tirésias, e essa retratação do Nolan é muito paia, é só uma ilha que eles derramam sangue, acendem uma fogueira e vem os mortos conversar com ele, porque para o Nolan não faz sentido eles terem que descer até o inferno no mesmo filme que eles literalmente acabaram de matar um ciclope e que metade daqueles caras acabaram de virar uma vara de porcos, não, tem que manter um pezinho na realidade da mitologia grega, não é mesmo? É essa a Lei de Zeus. Outra que eu não curti tanto é a do canto das sereias, apesar da cena em si ser muito boa, eu acho que o Nolan peida em não mostrar as sereias, porque é um absurdo existir mulheres metade humanas e metade peixes nesse mundo, não é? (Na realidade nem eu sei se é isso por aqui, porque nem a silhueta deixa a entender se é). A mesma coisa do Kraken, que está dentro de uma montanha e só tira os tentáculos para fora. Irmão, falta um sendo maior de resenha ao Nolan, quando ele abraça o lado mais fantasioso, gera ótimas cenas, e essas cenas que eu falei em si não são ruins, mas falta algo a mais, falta um tempero que é ter um senso de epicidade maior, que é se levar menos a sério de vez em quando, ele sempre fica nessa linha de ser muito sério e isso é o que acaba me afastando do cinema dele em muitos momentos.
Outra parte que eu senti que poderia ter mais é a de Odisseu perdido na ilha com a Calipso, porque ali eu acho que ele dá uma rushada. Primeiro que soa até absurdo eu falar que ele está rushando alguma coisa em um filme de quase três horas, segundo que até que faz sentido se for colocar pelo ponto de vista do Odisseu, mas mesmo assim falta um sendo de passagem de tempo, não parecem que foram vinte anos, parece que foram nove meses, parece que o Odisseu estava fugindo de uma gravidez, e isso vale para o filme praticamente todo, porque o que salva isso são rápidos flashbacks que existem antes da partida para Tróia. Entretanto, eu gosto de como o Nolan dirige diversas cenas, em especial os momentos de ação, eu acho a última hora desse filme toda muito boa, uma das melhores coisas que o Nolan já dirigiu, que é o retorno de Odisseu (o que não é um spoiler, essa história existe desde antes de Cristo, se você não sabe, o problema é seu que não tem cultura), e como o Nolan constrói todo esse terceiro ato é de uma grandeza épica que ali atinge o que ele estava querendo buscar desde o início. O ato final do palácio, o clímax do longa com o retorno de Odisseu, armando o arco que só ele consegue armar e revelando estar vivo, é fantástico, é arrepiante. E toda essa sequência final é muito bem filmada, muito bem construída, tem pequenas coisinhas ali no meio que me incomodam, mas nada realmente relevante para me tirar do longa.
A grande mensagem do longa que eu falei lá atrás, é que o Nolan tenta criar uma relação dos seus personagens com seus deuses, então, a irritação com certos deuses como Zeus e Poseidon causam um atraso na jornada, um estrago, e é a fé nesses mesmos deuses que leva Odisseu de volta para a casa, que reconstrói esse abalo que existe durante esses anos que ele está fora. Mas, honestamente, é uma das formas mais atéias que eu já vi retratarem deuses no cinema, simplesmente porque o Nolan quer deixar isso subentendido, ao mesmo tempo que quer que aquilo seja uma verdade dentro da narrativa. A única deusa que aparece de fato em cena é Atena, mas também fica subentendido se são visões do Odisseu ou se Atena realmente aparece para ele, até porque ao final descobrimos que ela tem (ou assumiu) a mesma aparência de uma moça que ele viu ser decapitada durante a Guerra de Tróia. Então, eu posso reclamar do Nolan querer explicar tudo, aí quando ele não explica eu estou reclamando também, pode soar até um hate, mas é mais porque falta esse senso fantasioso que eu havia falado, é tudo muito cinza, muito sério e muito pé no chão, em coisas que não precisavam ser tão pé no chão assim, falta uma autopermissão maior para ser mais inventivo, tanto que até a primeira coisa que aparece na tela no filme é um letreiro: "em um tempo de aparente magia", ou seja, nem o Nolan quer assumir esse lado mais fabuloso da coisa.
Mas uma coisa que o Nolan sabe fazer bem é construir a parte técnica e estética de seus filmes, aqui não é diferente. É tudo muito bem construído e passa uma sensação real de épico grandioso enquanto você assiste. Primeiro que a preferência dele por usar cenários reais é algo que é realmente admirável, pois deixa cada lugar vivo e palpável, e somado a um ótimo trabalho de cinematografia do Hoyte van Hoytema, cria realmente essa sensação de épico grandioso, mas que você consegue ver acontecendo sem tela verde, sem as coisas parecerem muito falsas, você compra. O cenário de Ítaca, a ilha é viva, você consegue sentir que tem toda uma comunidade ali vivendo todo dia. Tróia é muito bem construída (e destruída também), o cenário de Esparta, a ilha em que Odisseu fica preso com Calipso, são todos cenários muito bem filmados que você se sente realmente no meio de algo grandioso. Além da cenografia, a construção interna dos palácios, os barcos, o próprio Cavalo de Tróia, é tudo muito bem feito. Os figurinos, eu vi gente reclamando de falta de acuracidade histórica (numa história mitológica), mas é tudo muito bem feito, as armaduras, os vestidos, as vestimentas, como elas vão se diferenciando ao longo da trama e construindo o que tal personagem é através do seu figurino. E mais uma trilha sonora fantástica do Ludwig Göransson, temas fantásticos que te imergem na trama e cria muito bem essa sensação de grandiosidade. Entretanto, um questionamento precisa ser feito: quase três horas de filme, armaduras grandes, cenários grandes, planos grandes, cavalo grande, barcos grandes, escudos grandes, lanças grandes, espadas grandes... Será que o Nolan está querendo compensar alguma coisa?
Eu achei o elenco muito bom também, em grande parte, mas tem algumas escolhas que não são tão entendíveis assim. A começar com o protagonista, o Odisseu, interpretado pelo Matt Damon, que manda bem, eu gostei da atuação dele, talvez seja a melhor atuação dele em muito e muito tempo. Ele tem presença, ele impõe um senso de liderança e de desespero que te ajudam a comprar a personalidade e a jornada do personagem. Ele funciona bem como esse herói de ação, mas quando precisa dele em momentos mais dramáticos, ele entrega também. Eu gosto especialmente de como ele é construído através dessa jornada e como isso vai moldando ele aos poucos, até no ato final ele voltar totalmente diferente e entregar o melhor momento do filme. E só para não deixar batido, acho engraçado como o arco dele no final é parecido com o arco do Oppenheimer: o Oppenheimer fica incrédulo que a bomba que ele construiu para matar pessoas realmente matou pessoas, enquanto o Odisseu fica incrédulo de que o cavalo que eles construíram para se infiltrar e destruir Tróia por dentro, realmente funcionou e eles se infiltram e destroem Tróia por dentro.
O Tom Holland como Telêmaco é bom, acho que é funcional. Meu problema com o Tom Holland é que ele é uma personalidade tão frequente e que a gente vê tanto sempre sendo a mesma coisa, que fica difícil de desvencilhar o ator dele mesmo, então sempre parece que ele é o Tom Holland, e aqui ainda tem um pouco disso. Falta um pouco de presença para ele que deixe ele um pouco melhor dentro da narrativa, mas dentro do que se propõe, não me incomodou tanto. Agora, a Anne Hathaway como Penélope, essa aí eu já não gostei tanto. Primeiro que o Nolan não sabe escrever personagens femininas, isso é um fato conhecido, e aqui todo o arco da Penélope é construído em torno do Odisseu e da esperança por seu retorno, só que o Nolan às vezes parece que quer forçar uma espécie de independência dela que eu não consigo comprar, porque é mal feito, e ela tem uma cena que foi claramente escrita para ser o clipezinho dela no Oscar, mas eu não curti a personagem em absolutamente nada. Minha atuação favorita do filme é o Robert Pattinson como Antínoo, um dos pretendentes de Penélope, que serve talvez como o principal antagonista da história, e eu gosto de como o Nolan constrói a covardia dele, o jeito que ele sempre tenta parecer o brabo, o cara mais importante dali, mas como ele não passa de um medroso, egoísta e arregão, mas que certamente tem seus momentos de destaque em performance.
Outra atuação que eu gostei foi do John Leguizamo como Eumeu, o pastor cego que conta as histórias de Odisseu para as pessoas em Ítaca, que serve como uma espécie de professor para o Telêmaco, e a atuação dele é muito boa, já que ele faz esse cara que é um servo fiel de Odisseu, que faz de tudo para tentar manter a crença de que ele vai retornar, e ele tem momentos muito bons, o Leguizamo encarna o personagem, some no papel, eu não identifiquei que era ele até metade do filme, e é uma das grandes performances do longa. Tem a Charlize Theron como Calipso, e aqui é mais uma personagem feminina desperdiçada porque o Nolan parece que só interagiu com a esposa dele de mulher na vida, ela poderia ter bem mais tempo de tela, mas toda a parte dela, que é uma grande parte da história original, é bem rushada e não tem tanto impacto no final. O Corey Hawkins faz um valentão genérico, um personagem que é feito única e exclusivamente para você odiar, e só isso também. O Jon Bernthal, até interpretando Menelaus, parece que a qualquer minuto ele vai mandar um "lemme tell you something", tem uma cena que ele dá um grito que na hora já me lembrou o Justiceiro. A Lupita Nyong'o, que causou toda uma polêmica ao ser escalada como Helena de Tróia (o que é puro racismo, convenhamos), mal aparece direito no filme, poderia ter um pouco mais de destaque, mas ela tem uns três minutos de tempo de tela. E a atriz mais desperdiçada é a Zendaya, que faz a Atena, aparecendo esporadicamente para conversar com Odisseu, e o papel dela é muito pequeno para ser a Zendaya interpretando, não tem nem algum momento de destaque, ele só escalou a Zendaya por ser a Zendaya. E também tenho que falar do personagem mais aurudo dessa parada toda, que é o Agamenon, ou melhor, o Auramenon, que só está no filme para farmar aura. Ele entrando pelos portões de Tróia é uma das cenas com a maior aura possível. E é engraçado que ele é interpretado pelo ator com mais cara de bocó que existe, que é o Benny Safdie, mas o porte dele, a voz dele, é outro que também some no papel e é quase impossível de se identificar.
Enfim, podemos dizer que "A Odisseia" é muitas coisas. É um bom filme? Sim, inegavelmente. É a obra-prima que as pessoas estão tentando pintar? Muita calma nessa hora. A primeira hora de longa é sofrível, eu pegava meu celular para ver o horário e pensava: "cacete, não foi nem meia hora ainda" e eu já estava cansado do tanto de explicação e diálogos expositivos que o Nolan vai colocando um atrás do outro e deixando um filme sonolento e que demora para engrenar, mas que quando engrena, ele só vai para cima. Existem momentos de ação muito bem feitos, a jornada de Odisseu em sua maioria é muito legal, enquanto em outros momentos falta um senso maior de fantasia, de abraçar o lúdico, e existem representações que são meio paias, enquanto outras são muito boas. Um elenco competente, especialmente Matt Damon, Robert Pattinson e John Leguizamo, enquanto outros atores são desperdiçados, especialmente Charlize Theron e Zendaya. Uma construção técnica impressionante, você é transportado para esse mundo de uma maneira que torna-se crível. Mas, eu mantenho a minha visão de que é um projeto de ego do Nolan, que ele só quer fazer porque ele se vê nesse patamar alto dele se sentir digno de adaptar uma das maiores obras da história da humanidade, e ele mandou bem, mas existem decisões criativas que não me agradaram tanto. No geral, um bom filme.
Nota - 7,5/10