Crítica - Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026)

O que vem após o ápice de um personagem no MCU?

Há quase cinco anos atrás, eu estava aqui para comentar sobre "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" (2021), que havia encerrado essa primeira trilogia de Tom Holland no papel do cabeça de teia de um jeito épico que fez os cinemas do mundo inteiro virarem estádios de futebol, inclusive falo até hoje que foi a melhor experiência coletiva que eu já tive no cinema. Hoje em dia, mesmo nem fazendo tanto tempo assim, já existe um revisionismo, do pessoal dizendo que "nem era tão bom assim", "só foi bom por causa da nostalgia" e eu não discordo, mas foi um filme que foi feito para ser isso. Enfim, encerrou essa trilogia que divide opiniões até hoje, é difícil achar pessoas que tenham opiniões parecidas sobre os três longas, são obras em que a divergência é bem frequente. Particularmente, eu gosto do primeiro, não gosto do segundo e acho o terceiro ainda muito bom. Mas, agora chegamos a um novo dia, literalmente, que prometia ser o recomeço de Peter Parker dentro do MCU após o final do anterior e todo mundo esquecer dele. No início, parecia ótimo, mas aí veio algumas notícias que deixaram para baixo, trazer de volta a Zendaya e o CEO do Sexo, personagens que os arcos claramente já tinham sido encerrados no final do filme anterior, aí escalaram a (minha futura esposa) Sadie Sink e ficaram até agora nessa frescura de não falar quem é a personagem dela. Aí enfiaram o Justiceiro, enfiaram o Hulk, e então, apesar dos bons trailers, eu não sabia muito o que esperar daqui, então fui ver sem muita expectativa, e devo dizer que me surpreendi positivamente, o filme é muito bom.

Quatro anos após todo mundo esquecer quem ele é, Peter Parker (Tom Holland) leva uma vida solitária, se focando totalmente em ser o Homem-Aranha e combatendo o crime em Nova York. Entretanto, quando surge uma ameaça invisível que ninguém consegue ver, mas apenas Peter consegue sentir devido ao sentido aranha, Peter vai precisar lidar com uma crise de identidade para entender se ele ainda é o Peter ou se ele está se tornando 100% o Homem-Aranha. Enquanto, no caminho, precisa lidar com o retorno de sua ex, MJ (Zendaya) e de seu antigo melhor amigo, Ned (Jacob Batalon) à Nova York, com o Justiceiro (Jon Bernthal) e com mudanças em seu DNA aracnídeo, que lhe dão novos poderes e atiçam seus poderes existentes. E a primeira coisa que precisa ser dita é que a diferença de um diretor que tem visão artística de verdade com um diretor que parecia um robô fantasma criado pelo Kevin Feige é gritante. O Destin Daniel Cretton, apesar de não ser o primeiro filme da Marvel dele, é um cara que trabalhou em "Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" (2021), que é um filme bacana, ele tem uma carreira prévia de sucesso no cinema mais independente, e ele aqui entrega uma história que foca mais no Peter Parker e no seu desenvolvimento como pessoa, do que qualquer cena de ação ou grandiosa, tornando-se um filme sobre amadurecimento, luto, o peso das decisões do passado e o que isso traz para o presente e o futuro.

O foco ser no personagem, no desenvolvimento dele cada vez mais deixando de ser o Peter e virando cada vez mais só o Homem-Aranha é condizente com o arco dele. Ao final do filme anterior, quando ele percebe que a vida das pessoas que ele se importa estava melhor sem ele, não haveria motivo para ele querer ter essa aproximação de novo. Anos depois vemos esse Peter solitário, sem nada, com a única companhia dele sendo uma IA que ele mesmo criou, então tudo o que o Peter faz é levar flores para o túmulo da tia May, combater o crime e ficar stalkeando o Ned e a MJ, como se fosse uma pequena forma dele ter um gostinho da vida que ele teria e deixou de ter para o bem de seus amigos. É um Peter triste, sem rumo, e que se torna cada vez mais como o próprio Andrew Garfield alertou ele lá no No Way Home, ele ficou amargo. Todo o arco dele e dos seus genes aracnídeos irem crescendo é porque ele vai se perdendo na própria identidade secreta, e tudo isso ser aguçado após ele ir na festinha da MJ e ver que a vida dela e do Ned seguiu sem ele e está muito melhor, é como se fosse o inverso do "Homem-Aranha 2" do Sam Raimi, onde lá ele perde os poderes pela decepção, e aqui ele os ganha, não vou dizer que pela decepção, mas pela dureza de ver a verdade na frente dele, e isso é muito bom.

Em questão de adaptação, esse é, em muito e muito tempo, o Peter Parker que mais se aproxima do que é o personagem nos quadrinhos, e isso é o que eu mais queria ver adaptado. Que saudades que eu tava de ver o Peter sendo um miserável, até porque depois de todo o conforto que ele teve anteriormente, de sempre se amparar no Stark ou nas tecnologias dele, aqui o Tony nem sequer é citado, o que eu já considero uma vitória, já que foi a pior coisa que o MCU tentou fazer com o Miranha: tentar transformá-lo no sucessor do Homem de Ferro, sendo que quem que é o Homem de Ferro na fila do pão perto do Homem-Aranha? Aqui vemos esse Peter que é inteligente, que é engraçado, que mantém o senso de humor, mas que está vazio, que está remoendo diversos acontecimentos que ele presenciou e fazendo tudo isso sozinho, o que deixa isso muito mais difícil para ele, já que as maiores interações que ele vem tendo são uma pequena birra com o Justiceiro e conversas com uma detetive que ele vem trabalhando junto por algum tempinho ultimamente. É aquele Peter Parker que todo jovem adulto se identifica de alguma forma, pois ele está naquela fase da vida em que é um limbo entre a adolescência, a convivência familiar, e a vida adulta, a aprender a se virar sozinho, e como ele faz tudo isso sofrendo pela ex, acaba que torna-se bem mais fácil de se identificar.

Um dos meus maiores medos, e acredito que de todo mundo, era essa questão de trazer de volta a MJ, a Michelle da Zendaya, e o Ned, interpretado pelo Jacob Batalon, nosso querido CEO, porque o arco desses personagens já havia sido encerrado no filme anterior, e a gente esperava que viesse Harry, viesse Gwen, viesse a Mary Jane, ou qualquer um dos personagens clássicos dos quadrinhos, mas temos que aceitar que o Ned e a MJ são o Harry e a Gwen do Tom Holland, não tem jeito. E cara, eles brincam com isso o tempo todo, eles manipulam toda hora pensando que em algum momento o feitiço vai se quebrar, chega até uma cena que a grande ameaça brinca com isso, e é uma cena que eu já tinha matado que era manipulação porque era muito piegas para ser verdade, só o trouxa do Peter Parker para cair numa dessas mesmo. E trazem de volta toda aquela questão da carta que ele escreveu para ela relembrar dele no filme anterior, e como eles trazem isso de volta aqui é muito bom, é meio conveniente, mas dramaticamente falando é a melhor cena do filme, pois é retratado de um jeito extremamente maduro e que faz todo o sentido com a situação, me lembrou até o jeito que o James Gunn lidou com a Gamora no "Guardiões da Galáxia Vol. 3" (2023), que poderia simplesmente ter apagado todo o sofrimento daqueles personagens e ter dado um felizes para sempre, mas trabalha de um jeito adulto e condizente, que nos faz lembrar de porque o Peter Parker ainda precisa desses momentos para crescer e se tornar o Homem-Aranha que ele precisa ser. Além de que é o próprio título, é um novo dia, nesse novo dia, diversas coisas podem acontecer.

A tal da grande ameaça aqui acaba por ser a Jean Grey, que é interpretada pela Sadie Sink. Esconderam tanto qual seria a personagem dela, ela fez um trabalho de PR gigantesco negando todos os rumores possíveis, ela mandou muito bem nisso, não deu nenhuma pista mínima, mas, convenhamos, é o segredo mais mal guardado de Hollywood isso aí, todo mundo já tinha noção de que ela seria a Jean, até porque os trailers meio que já entregavam de uma forma ou de outra. Quem me conhece sabe, meus amigos que estão lendo esse texto podem confirmar, que a Sadie Sink é a crush famosa número um desse que vos fala, eu sou completamente apaixonado nela, mas sempre que eu ouvia esses rumores dela como Jean eu ficava com um pé atrás, primeiro porque eu acho que ela não tem porte para ser a Jean, ela é muito baixinha e magra, a Jean na minha cabeça tem que ser uma mulher mais alta e esbelta, mas agora que já foi, eu tenho que admitir que ela mandou muito bem, claro que sou suspeito para falar, mas a atuação dela aqui foi ótima. Essa Jean é só uma adolescente perdida, ela não é de fato uma vilã, ela está à procura da irmã dela, está mais para essa anti-heroína, que acaba entrando no caminho do Peter devido a ele estar trabalhando junto com a Controle de Danos sem saber dessa questão da irmã dela. Ela tem um arco emocional muito bom, o jeito que ela se conecta com o Peter aos poucos e como isso se desenrola no final, como o Peter consegue impedir ela usando das próprias memórias dele para confortá-la, é o jeito mais Homem-Aranha de impedir essa grande ameaça possível. Eu arriscaria até a dizer que ela é o coração desse filme, porque ela pode ser a antagonista, mas ela também é uma vítima, e ela funciona nos dois quesitos, foi muito bem feita.

Agora, o outro vilão, que é o vilão de fato do filme, é muito ruim, que é só um engravatado genérico, interpretado pelo Tramell Tillman, o tal do Bill Metzger, o chefe da Controle de Danos, que é um personagem bem qualquer coisa. Ele é só um cara que quer explorar os poderes das pessoas, com a gente tendo conhecimento de que a Sarah, a irmã da Jean, foi uma cobaia no que ele estava testando e posteriormente há a revelação do destino dela, então ele é um cara que tem maldade, ele é um desgraçado, mas meio que dane-se, porque ele não é tão importante assim, o que importa na realidade é a Jean, na real ele é o antagonista da Jean e a Jean, por cadeia, torna-se a antagonista do Peter, mas é um personagem bem qualquer coisa, tanto que ele não tem nem final, nem se sabe o que rolou com ele depois de tudo, porque ele não importa. Ainda tem outro vilão, que é o Escorpião, interpretado pelo Michael Mando, que havia sido mostrado numa cena pós-créditos de quase dez anos atrás no "Homem-Aranha: De Volta ao Lar" (2017) e nunca tinham dando sequência à ele, era um teaser para atiçar que haveria um Sexteto Sinistro com ele, com o Abutre do Michael Keaton, mas que nunca rolou, e aqui ele aparece por aparecer mesmo, tem um ou dois momentos de ação, não tem muita função na trama, só está aqui para conectar essa ponta solta que eu nem dava bola mais.

Existem outros heróis da Marvel que são colocados aqui, que particularmente não me incomoda em nada, já que o jeito que eles são inseridos é muito quadrinhos mesmo, é bem do jeito que rolaria numa HQ do Homem-Aranha. Tem a Yelena, interpretada pela Florence Pugh, que aparece em duas cenas, numa participação que torna-se útil para a trama e também para criar uma conexão de justificar o Peter em "Vingadores: Guerras Secretas" (acredito que ele não deva estar em "Vingadores: Doutor Destino", enquanto em "Guerras Secretas" tanto ele quanto a Sadie como Jean já foram confirmados), é uma personagem muito boa, uma participação pequena, mas engraçada. Tem o Bruce Banner, o Hulk do Mark Ruffalo, que tem uma participação bem pequena, diria até esporádica. Ele tem duas cenas, numa só para fazer o Hulk selvagem voltar, o que é um acerto, já que aquele Professor Hulk insuportável já não dava mais, já chegava a ser constrangedor, mas a função narrativa dele não é muita além dessa mesmo. O personagem desses que tem a maior função, e que funcionou bem demais com o Peter, é o Frank Castle, o Justiceiro do Jon Bernthal, que eu já falei que para mim é um dos melhores castings de todo o MCU, ele É o Justiceiro e ponto. A interação dele com o Peter é muito eles nos quadrinhos, como eles discordam, as pequenas intrigas que eles tem, o jeito deles de ficar discutindo que nem irmãos, mas que vai surgindo uma amizade honesta daquilo, a interação do Holland com o Bernthal é maravilhosa, e o finalzinho, a última cena dos dois juntos, me tirou um dos sorrisos mais honestos que tive em um filme da Marvel em tempos.

Enfim, muitas coisas poderiam ser ditas sobre "Homem-Aranha: Um Novo Dia", mas para mim as mais certeiras são que esse é o melhor filme do personagem nessa encarnação dele pelo Tom Holland e o melhor em live-action desde "Homem-Aranha 2" do Sam Raimi. É um filmaço, tem tudo o que um bom filme do Miranha precisava ter, e é uma renovação necessária, não só para esse personagem, mas para essa nova fase do MCU, que realmente precisava desse novo respiro, desse novo dia, e agora que está todo mundo liberado, essa nova fase, com esse novo Peter, os novos X-Men que estão prestes a vir (aqui fica minha candidatura oficial para interpretar o Ciclope, só paga a passagem que o resto eu faço de graça, dona Marvel, e com o maior prazer do mundo), e os novos personagens que ainda virão. É uma nova esperança para esse universo, que sabe muito bem trabalhar seus personagens, respeita sua própria história e seu próprio público, não recuando em suas decisões criativas e só indo para a frente, e o complicado de fazer os elogios agora, é que o próximo filme, que é Doomsday, é oito ou oitenta, então tudo isso que eu estou falando pode ser jogado na vala, mas ele já tem uma cara de nova fase pós-Doomsday, um novo recomeço, e recomeça de um jeito excelente para o Peter e para o universo como um todo.

Nota - 8,0/10

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