Crítica - Bugonia (2025)
A loucura de Yorgos Lanthimos continua, mas ele já está caducando aos 50 e poucos.
Yorgos Lanthimos é um cineasta que eu gosto muito, claro que eu ignorei todos os filmes dele que o pessoal critica, não por má vontade ou por acreditar nas opiniões prévias dos outros, mas sim porque, de fato, essas obras, como "Tipos de Gentileza" (2024) e "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) não me chamaram tanta atenção. Porém, quem acompanha a página tem alguns anos, ou melhor, desde o ano passado, sabe que eu sou um fã incondicional do seu "Pobres Criaturas" (2023), que foi meu top 1 no ranking de melhores filmes de 2023. Apesar de não ter visto ainda o filme que lançou entre Poor Things e este, continuei ansioso para este aqui, inclusive incluindo-o na minha lista dos filmes mais esperados de 2025, por conta de ser uma comédia estilo Lanthimos, com a parceria inabalável dele com a Emma Stone que gerou dois excelentes longas, e que envolve alienígenas e teorias da conspiração, sendo um remake do filme coreano "Save the Green Planet!" (2003), de Jang Joon-hwan. A premissa, somada ao diretor e ao elenco, me conquistaram por si só, mas será que o filme em si me conquistaria? Pois se não me fisgou o suficiente para ir ver o último, o que esse teria de fazer para eu ir lá ver e gostar? Acontece que... é, parece que o Yorgos antigiu seu auge em Pobres Criaturas mesmo, não que esse aqui seja ruim, mas é um nível abaixo do que ficou claro que ele pode entregar.
Teddy (Jesse Plemons) é um apicultor obcecado por teorias da conspiração, tanto que acredita nelas fielmente como verdades absolutas e crê que quem não o faz, é alienado e vive em uma mentira. Uma de suas teorias é acreditar que Michelle Fuller (Emma Stone), uma ricassa, CEO de uma grande empresa corporativa, é, na realidade, uma alienígena do planeta Andrômeda, enviada para nos estudar, se misturar e, eventualmente, nos substituir. Nisso, ele conta com a ajuda de seu primo Don (Aidan Delbis) e monta um plano para sequestrar a empresária, pois em quatro dias haverá um eclipse lunar e nisso, segundo as teorias em que acreditam, a nave-mãe de Andrômeda chegará a Terra, fazendo contato com sua suposta enviada, e eles querem usá-la para fazer um acordo de paz com os extraterrestres. Cara, essa premissa soa absurda, claro que existem outros filmes que retratam coisas parecidas, mas acontece que acaba que o Yorgos quer contar uma história que conversa mais com os dias atuais, mostrando todo o impacto causado nas pessoas através da internet, de redes de mentiras, fake news, teorias da conspiração, e nisso cria uma história que retrata o tema de um jeito que é só ok, poderia ter sido bem mais impactante, e que também em diversos momentos torna-se monótona demais ou expositiva demais, ficando aquém do que poderia ser explorado.
Você tem um tema interessante na mão, em alta em diversas discussões, claro que é uma minoria que crê nessas coisas, mas é uma minoria barulhenta e que irrita qualquer pessoa sã. São um bando de esquisitos sem vida social e que vivem em uma bolha de suposições e achismos negacionistas e totalmente fora da realidade. Aqui, você explorar isso poderia ter sido algo bastante interessante a ser trazido à tona em uma obra de um diretor como esse, mas termina que é um tema explorado principalmente através de exposições nos diálogos, onde você precisa ouvir os personagens explicando no que eles acreditam ou alguém contrariando eles para perceber sobre o que é a obra, qual o tema que quer apresentar e qual a mensagem que quer passar, mas termina que nisso perde-se uma segunda camada, um subtexto que engrandeceria o filme, e nos prende em diálogos autoexplicativos e/ou chatos. Você vê os personagens conversando e fica com um sentimento de que não tem nada acontecendo, muitas das conversas são longas, mas o conteúdo delas é raso, você não sente vontade de continuar escutando a maioria dessas conversações. Eu gosto muito de filmes assim, constituídos muito através de diálogos, de construção de personagens através das falas, mas aqui não existe um quê sublime nisso, é bruto, falta uma calma, falta uma sensibilidade que seria essencial para uma história como essa que quer abordar certos assuntos que ficam perdidos aqui conforme o avanço da trama.
Também acho que o Yorgos Lanthimos se perde diversas vezes na direção, pois parece que até ele reconhece que está faltando alguma coisa, pois a história de vez em quando muda a direção e vai para algo em que não nos cativa nada a acompanhar essas diversas narrativas que são postas dentro do longa. Como eu falei, muitos diálogos longos entre personagens, mas o conteúdo não intriga, não consegue investir o espectador na trama, vai se perdendo o interesse a cada frase que sai da boca dos personagens, e nisso, de vez em quando, o Yorgos põe uma quebra de expectativa ou outra ali, uma ou outra reviravolta, que serve única e exclusivamente só para chocar o espectador, já que a função narrativa é indiferente, a história seguiria caminhos semelhantes de um jeito ou de outro, e acaba que esses choques são apenas uma encheção de linguiça que deixa a trama mais insossa e cansativa. Na realidade, a impressão que eu tenho, é que este é um longa com uma cara de curta, eu nunca assisti ao filme coreano original, então eu não tenho a mínima ideia se é bom, se é ruim, se funciona ou coisas do tipo, mas o jeito que o Yorgos conta essa trama é tão arrastado, se deixa levar tanto por plot twists e exposições, que acaba ficando cada vez mais chato a cada segundo que passa, bate um soninho legal em certos pontos.
Yorgos tem até algumas ironias legais, o estilo de comédia dele não agrada a todos, mas ele põe algumas coisas aqui que eu achei engraçadas, que a principal delas é dar razão para os malucos, então a Terra nesse universo do filme é plana e tudo em que eles acreditam, de fato, é confirmado no final. Essa é uma subversão legal, mas que é explorada apenas na superfície e que se perde em alguns momentos. Poderiam ter explorado isso além mais, é que nem eu disse, falta uma camada de subtexto, é tudo literal, tudo que eles falam, explicam e acreditam é comprovado como verdade, não tem sutileza. Eu acho que essa ideia da Terra Plana mesmo, seria muito mais legal se ela fosse escondida, se não fosse mostrada desde o começo que ela é plana, e só fosse revelada no final quando há a grande reviravolta, porque seria um dos poucos twists que faria sentido com a obra e que seria uma excelente piada bem contada. É sempre bom lembrar que é um remake de um filme coreano e, vou ser honesto, dá para notar, pois aqui tem cacoetes do Lanthimos tentando emular muito o cinema sul-coreano, mas com certa abordagem que não encaixa com o estilo dele de contar uma história, fica claro que ele tenta emular nessa questão de enfiar dezenas de twists, de mudar a direção de algumas cenas drasticamente e nisso torna-se conflitante entre o estilo próprio do realizador e o estilo do original que ele está adaptando. Ele poderia ter feito do jeito dele, mais do jeito dele, ter trabalhado isso como ele já provou que pode trabalhar. "Pobres Criaturas" mesmo, a direção da história muda umas quatro vezes durante a exibição, mas é bem construído, existe um tempo dedicado a trabalhar como essas mudanças impactam a história, aqui é abrupto e muitas vezes parece que as reviravoltas estão lá só para dizer que é um filme "surpreendente" ou "imprevisível", mas para mim, soa só como ambicioso e sem objetivo.
Se tem alguma coisa que dá para salvar aqui, considero que sejam as atuações, porque o elenco está no ponto e o Yorgos é, comprovadamente, um baita diretor de atores, não à toa já dirigiu duas grandes performances que levaram o Oscar de Melhor Atriz merecidamente. A começar pelo Jesse Plemons, que para mim é a melhor coisa do filme, até porque o arco personagem dele é o pouco de sutileza que o Yorgos põe na trama. Ele é esse cara conspiratório, que entra em server de Discord, Reddit de terraplanismo, chapéu de alumínio, ADM da página Eles Tao Tentand ControlarNois da Silva no Facebook, ele soa como o doidão das ideias, o Monark do longa, como alguém tão maluco que se castrou quimicamente para não ter feromônios sexuais e evitar ser manipulado pela Emma Stone (spoiler: não deu certo, porque esse trouxa ainda conseguiu ser enganado por ela). Ele tem questões mais bem trabalhadas que fazem você entender o porquê dele ser do jeito que é, o fato da mãe dele estar doente e internada em um hospital totalmente apática e sem reação, ou o fato dele ter sido abusado na infância por seu babá, são questões que colaboraram para a mente dele estar toda ferrada e, nisso, ter essas piras de crer em Andrômeda, Terra Plana e querer sequestrar a CEO de uma empresa para provar que ela é uma extraterrestre. Meu irmão, se essa história não fosse de um filme de 2003, eu diria que ele na vida real sequestraria o Zuckerberg para ver se ele é reptiliano. O Plemons está ótimo nesse papel, ele traz essa convicção nas suas crenças de um jeito que realmente dá raiva dele e faz você o taxar de maluco o filme todo, mas também há empatia por ele em certos pontos, geradas única e exclusivamente pela atuação do ator, que consegue trazer essa questão dele como vítima em alguns contextos só com o olhar, ele faz você odiá-lo e sentir pena dele na mesma intensidade dependendo da cena, com o primeiro sendo o mais predominante ao longo do filme. De fato, ele está excelente, tem alguns momentos de explosão dele que são ótimos, mas a minha cena favorita é a dele medicando a mãe no hospital, essa aí a performance dele é tão abrangente, é tão cheia de emoções, contendo medo, a esperança, a ansiedade, e ele consegue equilibrar isso tão bem, que foi um dos poucos momentos que eu senti alguma coisa assistindo.
A Emma Stone é a Emma Stone, ela pode estar fazendo um comercial do McDonald's que ela vai estar absurda no papel, essa mulher só cresce na carreira, cada atuação dela é um papel marcante, atingindo o ápice, na minha visão, no "Pobres Criaturas" mesmo, um papel apoteótico e memorável como Bella Baxter, mas a questão é que ela só tem 37 anos, está a caminho da sua quinta indicação ao Oscar, sendo que ela já venceu duas vezes, é a Meryl Streep dos tempos modernos, doa a quem doer. Aqui, é preciso sempre falar o quanto ela se dedica aos papéis, o quanto ela sempre tenta tanto entrar na personagem e se entrega, literalmente, de corpo e alma, porque nos filmes do Lanthimos ela sempre fica pelada, nesse aqui ela decidiu raspar a cabeça de verdade para interpretar uma personagem que é calvada por outros personagens, então tem esse quê de entrar bastante nos papéis com a própria vida e isso é algo a se destacar. E ela está muito bem, como sempre, tendo ótimas cenas, mantendo a calma em momentos de tensão absurda, tendo uma atuação mais contida, mais séria, mas quando é necessário explodir, quando é necessário manipular os outros, ela traz isso muito bem, ela tem excelentes diálogos e cria boas situações para o longa que são mal aproveitadas. Gosto dela especialmente no terço final, onde fica meio ambíguo se ela é ou não um alien, existe essa dúvida, que é respondida ao final, mas ela traz essa ambiguidade com excelência. Poderia ter sido bem melhor desenvolvida do que foi, o material dela é muito raso, faltou mais corpo para a construção dela como figura dentro do universo e como personagem, mas passa longe de ser culpa dela.
A real é que o Yorgos me enganou legal com o Poor Things e agora só está entregando obras desinteressantes e/ou medíocres, honestamente ele pegou uma trama que não tem nada a ver com ele aqui também, não combina com o estilo dele de storytelling, fica muito claro isso quando se assiste "Bugonia" e percebe-se que falta muita coisa ali. É um filme raso, onde faltam camadas, falta uma sutileza e falta trazer algo mais encorpado, mais pronto para ser consumido, como falei, tive duas grandes impressões vendo o filme: a primeira é que é uma trama de curta ou média metragem esticada para rechear linguiça em um longa de quase duas horas de duração, e a segunda é que é um filme muito característico de um cinema oriental que o ocidental Yorgos Lanthimos tentou emular, mas não conversa com o estilo dele de contar histórias, acaba que esse filme nem sabe o que ele é de fato, se ele é irônico, se é uma comédia, se é um suspense de ficção científica, se os personagens tem camadas ou são mais planos que a Terra, é tudo muito jogado por aqui, muito indiferente. Salvo por uma grande atuação do Jesse Plemons como protagonista, de longe a melhor coisa do filme, e uma Emma Stone que está ótima, entregando muito com um material fraquíssimo para seu papel. Vai estar lá no Oscar, bom para o Yorgos, mas, honestamente, tem filme sem chance na corrida que merece as vagas que esse está disputando muito mais, esse aqui é uma queda brusca na minha visão de outros favoritos da temporada.
Nota - 5,5/10