Crítica - Faça Ela Voltar (Bring Her Back, 2025)
O filme mais perturbador de 2025.
Estou atrasado? Um pouco, mas antes tarde do que nunca, já que estamos falando de um dos grandes filmes que 2025 trouxe em questão de repercussão de crítica e público e um dos grandes filmes de terror do ano, tornando-se quase uma unanimidade entre os fãs do gênero. Dos Youtubers de comédia que viraram diretores de terror, os irmãos Danny Phillippou e Michael Phillippou, que alguns anos atrás, em sua estreia como cineastas, nos trouxeram "Fale Comigo" (2023), um filme que também teve uma repercussão gigantesca, mas o hype foi maior que o longa, já que eu achei apenas bom, não é lá um filme que me cativou muito na época, mas eu gosto, acho bem feito, e que agora retornam, em uma parceria com a A24, para um filme com muito mais orçamento, muito mais recursos e até uma atriz de renome como a Sally Hawkins liderando o elenco. E devo dizer: esse é infinitamente melhor que o anterior da dupla. Cara. é um baita filme, já adiantando, é um dos filmes mais perturbadores e desgraçados que tiveram 2025, talvez o mais, já que aqui tem cenas que são absurdas e chocantes, somados a um tema bastante interessante e que gera um baita filme de terror.
Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong) são dois irmãos que acabaram de perder o pai. Piper tem uma deficiência visual e Andy cuida dela, mas por ainda ser menor de idade, os dois são redirecionados por uma assistente social para a casa de Laura (Sally Hawkins), uma terapeuta que perdeu sua filha, Cathy (Mischa Heywood), que também era uma menina cega, e agora cuida de crianças órfãs, como Oliver (Jonah Wren Phillips), um garoto, no mínimo, quieto (digamos assim). Porém, quando Andy começa a perceber que talvez Laura não seja aquele anjo todo que foi pintado, muitos traumas vem à tona e muitas coisas bizarras começam a ser percebidas, envolvendo violência, crimes, gore, uma faca e rituais sobrenaturais, que envolvem Laura querer, de todo jeito, trazer sua filha de volta. É um filme que quanto menos eu falar sobre ele, melhor para você, que não viu o filme, só vá lá assistir, pois é uma daquelas experiências que melhoram se você não souber absolutamente. Eu mesmo não sabia de nada, além do pôster e da presença da Sally Hawkins, e foi uma experiência absurda, num sentido de que esse é um daqueles filmes que vai te deixar em choque, te arrebentar e se tornar algo difícil de assistir em alguns momentos, com os diretores pegando várias das qualidades de seu filme anterior e melhorando em absolutamente tudo, criando aqui algo a mais do que apenas um terror qualquer.
O maior trunfo de todos aqui é realmente dar profundidade aos personagens, são pouquíssimos personagens envolvidos, mas todos são muito bons, todos são muito genuínos, apesar de claro, ter coisas ali que envolvem um lado de fantasia, de sobrenatural, você conseguem comprar que aquelas pessoas tem dramas reais, tem questões que você compra, pois, no grosso, são situações que muita gente passa, já que o tema principal por aqui é o luto, as diferentes formas de lidar com a perda de um ente querido. Essa foi minha maior reclamação quanto ao Fale Comigo, já que eu falei que as situações são chocantes, mas você não se importa tanto porque os personagens e os atores eram fracos. Aqui, as situações são chocantes, os personagens são bons e o elenco melhor ainda. O anterior já tinha um tema, algo relacionado ao vício de substâncias, mas aqui o tema do luto é muito melhor explorado e sai de apenas um subtexto para ser o grande cerne da narrativa, onde você explora isso tanto na forma do protagonista de lidar com tudo isso, quanto da antagonista num contexto similar.
A direção dos irmãos Philippou é muito boa, pois eles conseguem criar muito bem a situação e ir acrescentando o suspense a cada segundo. Começa num prólogo meio found footage, mostrando o ritual que vai ser relevante para a trama, então ali já vem algo que instiga o espectador, existe já ali um sobrenatural, um mistério, e nisso já começa a sequência de pensamentos de "que p0rra é essa?". Aí somos apresentados aos personagens centrais, os dramas que eles enfrentam, os contratempos que acontecem, a morte do pai, como eles vão construindo tudo de um jeito comum, mas, que plantam sementinhas ali de: "tem parada erra aí", tem sempre dúvidas rolando, o mistério do que é o Oliver, o porquê dele estar ali, o porquê dele ser careca, dele ser quieto, dele estar daquele jeito atônito e esquisito que está, o que a Laura tem a ver com tudo isso, é algo bem construído, que se estende para uma cena de funeral e pós-funeral, onde é a última cena "normal" do filme, mesmo com pitadas de dúvidas que são postas ali, o que vem depois é só ladeira abaixo. Os irmãos sabem criar o choque e construir cenas que são aterrorizantes, que são perturbadoras, e não soa gratuito, o choque vem como uma forma do filme te mostrar o quão louca e o quão bizarra é toda aquela situação que virá. Existe uma cena que esse menino, o Oliver, mexe com uma faca, que essa cena é traumatizante, eu não tive estômago pra assistir ela por inteiro, a mesma coisa em outros momentos, já que dali para frente, é só para baixo.
Eu gosto de como eles constroem bem o protagonista, o Andy. É um adolescente à beira da maioridade, que vive para cuidar de sua irmãzinha deficiente, que acabou de perder o pai jovem e não tem uma figura materna, então é fácil de empatizar por ele, de comprar o lado dele. Já plantam uma sementinha ali no começo que ele fez besteira quando era criança, passou por questões mais complexas numa idade mais jovem, e nisso vem um mistério do filme e se soma a um arrependimento dele. Ele não é um protagonista 100% bonzinho, ele é meio temperamental, ele tem esse passado misterioso, mas você cria simpatia por ele pela relação que ele tem com sua irmã, essa coisa dele ser o cuidador, e por ele ter sido espancado pelo pai diversas vezes, você sente pena dele. Na real, você vai sentindo pena dele o filme inteiro, já que o que ele sofre nas mãos da mãe adotiva é bizarro, ele vivendo um monte de desgraças, presenciando um monte de calúnias contra ele, você sente pena dele e o ator é muito bom ao conseguir trazer ao mesmo tempo essa juventude, uma irresponsabilidade, mas uma responsabilidade ao mesmo tempo, já que ele teve que ser maduro muito cedo, mas nisso não deixa de ser um adolescente médio, que bebe, que fala besteira com os amigos, porém, nessa de ser o mais velho, de ter que ser basicamente um pai, você se compadece por ele. E essa questão do luto dele pelo pai, o trauma que ele cria, como ele se sente culpado, como ele sente medo, isso é a cereja no bolo do desenvolvimento dele, poderia ter tido um pouco mais, eu acho, mas foi funcional, traz um tempero a mais para a trama.
Agora, a Sally Hawkins é absurda, que atuação de alto nível. Ela começa como aquela mãe aparentemente pacata, uma senhorinha solteira animada, que gosta de crianças, escuta os clássicos do summer hits 2010s, mas à medida que o filme vai passando, você já vai sentindo a bizarrice nela, e ela é muito boa em tentar esconder esse lado sombrio em meio a essa persona de boazinha. Ela tem esse quê de terapeuta, então ela conversa bastante durante o longa, tem diálogos bons com o Andy, mas, esse filme comprova uma teoria do senhor meu pai, que diz que todo psicólogo, psiquiatra ou terapeuta, na realidade só faz isso porque é tão louco que entende a cabeça de um, e aqui é basicamente isso. Você vai percebendo a cada segundo o quão louca é essa mulher, até se tornar de fato a grande antagonista, a que precisa ser impedida. Mas, ao mesmo tempo, você consegue entender o lado dela, e esse é o grande mérito do longa, já que ela faz aquilo tudo por um motivo egoísta, mas ainda sim, é uma mãe que perdeu a filha de um jeito trágico e tudo o que ela faz é por ouvir mais uma mísera vez a filha chamando ela de "mãe". Cara, você odeia ela, mas existe essa empatia por ela, a cena final é conflitante, pois mesmo após tudo o que ela faz, após o absurdo que é o take final dela, você ainda sente um pouco de pena, porque olha como o luto deixou aquela mulher, não tem como você pensar que ela seria a única a agir daquele jeito, apesar daqui ser uma ficção, um escalonamento, muita gente também tentaria fazer o impossível para ter uma despedida de um ente falecido. Simplesmente absurda, Sally Hawkins detona, a melhor atuação da carreira dela, uma personagem complexa que faz você se compadecer por ela e querer que ela morra ao mesmo tempo.
Agora, o garotinho careca do poster, esse aí também é excelente. Ele é muito bem construído, no sentido de que você fica se questionando o que aquela criança tem, para depois a dúvida virar o que aquela criança é, e por fim vem o questionamento de quem aquela criança pode ser, para chegar no final e esse guri ser, na realidade, maior vítima desse filme todo, é um passageiro da agonia absurdo. Ele em si é retratado quase como uma figura monstruosa, demoníaca, se conectando com a gravação found footage que abre o longa, mas é através de uma criança quieta, esquisita, aparentemente inofensiva, mas num filme como esse, você sabe que a criança que age assim é problema. A forma como ele é usado, como muitas das cenas chocantes da obra vem usando a figura dele, porque se fosse com qualquer um já causaria choque, mas usando uma criança careca que lentamente, a cada cena, parece estar cada vez mais possuída por alguma coisa, torna-se dez vezes mais aterrorizante. A cena da faca, que nem eu falei, e como ele no final torna-se quase um monstro de fato, o olho, os cortes, a pele estragada, a barriga, cara, a maneira como vai escalonando o visual desse menino e a cada vez ele estar pior, mais arrebentado, mais assustador, é um mérito gigante da direção e da equipe de maquiagem, que criam uma figura, no mínimo, memorável, realmente é para deixar na cabeça por um tempo.
Poderia falar de mais coisas, mas creio que já tá bom, não tem nada a mais que é de fato relevante para gerar um parágrafo completo, no máximo falar sobre a personagem da irmã do Andy, mas ela serve mais como um ponto de conexão do protagonista com a antagonista do que, de fato, como uma personagem bem desenvolvida. Outra coisa é a aparição sobrenatural que existe, como uma cena que Andy vê o espírito do pai dele, que é meio jogada lá no meio, confesso, não entendi muito bem a presença, talvez seja a única coisa que não se conecta bem com o resto do filme. Dito isso, que filmaço é "Faça Ela Voltar", confesso que não estava com muita vontade de ver, tenho preguiça de filme de terror, vocês que acompanham a mais tempo sabem, mas felizmente essa preguiça vai cada vez mais desaparecendo e esse filme foi uma grata surpresa em uma ingrata experiência, porque é um filmão, mas de um jeito que é difícil de assistir pela quantidade de cenas absurdas e chocantes que tem. É um filme que agrada pela profundidade que tem nos personagens e pela construção narrativa que existe, essa dualidade entre os dois personagens principais, o menino careca do capiroto, e as próprias cenas chocantes, eu geralmente tenho essa preguiça com terror muito do choque pelo choque, e aqui existe isso, mas tem função narrativa, tem motivo para existir, por isso funciona. Filmaço de terror, um dos melhores de 2025, realmente me pegou desprevenido.
Nota - 8,5/10