Crítica - Obsessão (Obsession, 2026)
Namoro básico em 2026.
Assim como eu falo todo ano aqui na página e se comprova cada vez mais a cada ano que passa, todo ano surge um filme de terror pequeno que acaba por se tornar um dos maiores sucessos do ano em público, em crítica e sempre dando muito lucro em bilheteria, mas eu acho que em 2026, tivemos o maior exemplo de todos quanto à isso, e é esse o filme que eu os trago hoje. Feito com um orçamento de apenas 750 mil dólares, rendeu mais de 461 milhões nas bilheterias de todo o mundo, no momento, são mais de 4,3 milhões de logs no Letterboxd e é o sétimo filme mais popular de todo o site (e a tendência é só subir), e é sempre muito massa ver algo assim, um filme bem pequeno que galga seu espaço, que vai conquistando o público por sua qualidade e que vai fazendo um sucesso que nem o funcionário mais otimista que trabalhou no filme imaginava. Dirigido e escrito por Curry Barker, um cara que fazia esquetes para o YouTube e tem apenas 26 anos, que simplesmente tinha esse roteiro, fez com pouco, tinha o apoio da Blumhouse, mas dava para ver que não é nada que eles colocaram tanta fé assim, e, do nada, é uma das maiores bilheterias do ano, uma das maiores bilheterias de todos os tempos de filme de terror e um fenômeno cinematográfico. Mas, será que faz jus à tudo isso ou é apenas hype? Será que houve uma comoção maior do que precisava?
O filme narra a história de Bear (Michael Johnston), um cara tímido, patético e meio esquisito que trabalha numa loja de música e é apaixonado por sua colega, Nikki (Inde Navarrette), mas não consegue falar isso para ela. Quando um dia Bear vai a uma loja de antiguidades em busca de um presente para ela, Bear acaba comprando o Salgueiro dos Desejos, um brinquedo que ao fazer um desejo e quebrá-lo, ele se torna realidade. Bear então, sem pôr muita fé, acaba desejando que Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo, e com isso, ela fica totalmente obcecada por ele, gerando situações que no início podem parecer maravilhosas, mas que vão tornando-se cada vez mais macabras. É um daqueles filmes com aquela clássica mensagem de "cuidado com o que você deseja", e eu iria mais além: "cuidado como você deseja", porque tudo só aconteceu porque esse cabaço do Bear falou de um jeito hiperbólico e acabou atraindo tudo de ruim que era possível acontecer nessa história. É um filme que gera muitas discussões sobre seus temas, seja paixão, seja sentimentos reprimidos, seja o quão longe você iria para mudar algo que não é para ser, é um filme que é constituído todo sobre essa questão de um sentimento que não existe, mas que o protagonista quer que exista, e nisso, ao desejá-lo, ele acaba estragando a vida de todo mundo.
Agora, o Bear é um ser humano ruim? Sim, terrível, ele é um bosta, um imbecil, egoísta, que está tão centrado nessa ideia de querer que a mina goste dele, que até na hora de tentar reverter o pedido, ele não quer reverter totalmente, ele só quer mudar a parte que ela é maluca, mas ele gosta desse sentimento dela pertencer a ele, dela amá-lo a todo custo, dela ser obcecada por ele, ele quer sentir isso, porque é a única coisa que esse desgraçado tem na vida, é se sentir minimamente amado, porque ele não tem nada. Ele pode ter uma casa, um emprego, amigos, mas ele é um nada, e não tem nada que o faça sentir que ele tem alguma coisa. O filme já começa com sua única companhia diária, sua gatinha Sandy, indo de ralo por ter tomado alguns remédios dele, e o fato dele ter um armário lotado de remédios já nos diz indiretamente que esse mano não é tão saudável assim. Agora, não é querendo bancar o advogado do diabo, mas todo mundo em algum momento, se encontrasse um Salgueiro dos Desejos, ia desejar aquela menina que você estava apaixonado, porque homem quando gosta de alguém, é movido pela cabeça de baixo, e ele fez o que já deu vontade em muita gente, o que complicou ele foi o jeito que ele pediu, porque se ele tivesse falado "eu queria ter coragem de chamar ela para sair", tava todo mundo bem e ele teria virado um ser humano melhor, mas na raiva e na incerteza de não saber se aquilo era real, ele acabou ferrando a vida de todo mundo.
O Curry Barker dirige muito bem, consegue criar bem esse clima de tensão e de sobrenatural em meio a algo que parece totalmente dentro do cotidiano daquele universo. Ele usa essa limitação orçamentária para potencializar o clima de horror em meio ao simples, usando muito do jogo de luz e sombra para contar essa história, até a formatação de tela que é meio um 4:3, que deixa achatado, deixa claustrofóbico. Eu gosto de como ele quase sempre filma a Nikki como se ela fosse uma entidade, muitas vezes na sombra, na escuridão, tem até uma cena muito boa em que ela é toda um vulto preto e a única coisa que brilha nela é o reflexo nos olhos, o que já alerta que a Nikki já não está mais ali, que aquilo é alguma coisa que já está além do nosso entendimento. Esse é outro acerto dele, nunca falar o que é exatamente o que está acontecendo, fica em aberto, você não sabe se é objetivo, se é sobrenatural, se é bruxaria, se é demoníaco, você não sabe de nada além do que você está vendo, e o que você está vendo já é meio perturbador e vai ficando cada vez mais perturbador a cada segundo que passa. Você fica envolvido nessa história, nessa vibe quase vintage que tudo tem por ali, e à medida que as coisas vão acontecendo, aos rumos que a trama vai levando, você vai ficando cada vez mais instigado, se importando com a trama e com aqueles personagens.
E voltando ao personagem do Bear, eu gosto de como ele é totalmente desajeitado, sem jeito, eu já comecei xingando ele no outro parágrafo, porque essa é realmente a vontade, mas ele é um personagem que você tem que ter o mínimo de empatia ou antipatia para a história funcionar, e sempre cai para a antipatia. Você acompanha pela visão dele, então em muitas das situações ele pode soar como uma vítima, mas na ótica de espectador, você percebe que ele não é nenhum coitado. O filme tenta fazer com que você no início sinta pena dele, vê que ele mora sozinho, toma remédio controlado, a gata dele morreu, não consegue se declarar para menina que ele gosta, é o pacote completo do coitadismo, mas essa pena que você sente dele vai sumindo lentamente a quanto mais tempo você passa perto dele. Eu gosto da atuação do Michael Johnston justamente por isso, porque ele é um cara totalmente dane-se, é um zé ninguém que você pegaria um Uber no carro dele, é um cara totalmente comum que tem essa cara de panaca, inofensivo e cabaço, que consegue entregar esse cara sem skill social nenhuma e que gradualmente vai adquirindo um olhar de mil jardas e percebendo a cagada que fez e se sentindo totalmente seguro nas partes que ele gosta e inseguro nas que ele não gosta de seu próprio desejo. Justamente por ele ser esse cara totalmente comum, a performance dele funciona, pois você compra que qualquer um poderia estar naquela, e ele traz esse tom de ser totalmente comum e dar a impressão de que poderia ser qualquer um ali.
Também vem a questão: quem é de fato obcecado? Porque a gente acha que o nome do filme vem porque ela fica doidinha pelo Bear e vai ficar obcecada por ele o tempo todo, mas eu acho seguro dizer que o Bear que é obcecado por ela, ou melhor, pela versão dela que ele criou na cabeça dele. O Bear é um ser humano extremamente egoísta, além de cabaço, tanto que quando ele ensaia o que ele queria dizer para ela em sua declaração, muita das coisas que ele fala que gosta não envolvem ela, envolvem o que ela fez por ele, ela ligando para ele quando a vó dele morreu, ajudando ele na época que ele sofria bullying na escola, e ela faz isso porque antes de tudo, ela era uma pessoa genuinamente boa, que tinha seus problemas, fazia uso de substâncias, mas ela é engraçada, é inteligente, carismática, tem um sonho de escrever livros, ela é uma pessoa que você entende porque que ele gosta dela. E ele tem todas as oportunidades do mundo para falar que ele gosta dela, ela dá a chance dele falar umas três ou quatro vezes, ele não fala por medo, ou talvez por incerteza inconscientemente. Ele se torna obcecado por uma versão dela que quando ele descobre que não existe, ele quer a versão que ele conhecia de volta, mas com essa parte do amor de volta. Tanto que enquanto ela está nesse lapso de amor doentio, existem alguns momentos que as vezes soam como a verdadeira Nikki tentando voltar, e em um deles ela pede para o Bear matá-la, e o que esse arrombado responde é "ficar comigo é tão ruim assim?", e ali torna-se claro que ele não gosta dela, apenas da criação dela na cabeça dele.
É preciso falar dessa personagem da Nikki, que é uma construção impressionante da direção e do texto do filme. Como eu falei, ela é uma menina doce, carismática, divertida, engraçada, que tem uma personalidade forte, que tem seus próprios sonhos, e tudo isso é arruinado quando esse egoísta faz o desejo e transforma ela numa maluca, na real nem dá para saber no que ele transforma ela, o que que é tudo o que está acontecendo, o Barker é inteligente em nunca revelar, mas o que a gente vê em cena, já é o suficiente para sentir não só medo dela, mas também pena. A atuação da Inde Navarrette é realmente um destaque do filme, quem diria que depois de passar um tempão xingando ela na página pela personagem dela em "Superman & Lois", viria eu aqui um dia falar que ela está sublime em um filme? Pois é, o mundo dá voltas. Eu adoro como a atuação dela é desconfortável, como ela sempre segura um tempo a mais do que o necessário, cria o sentimento de desconforto, de que tem algo errado, de que ela não está normal. Como em alguns momentos ela se mexe e se porta como um animal, como um demônio, como as vezes ela molda o rosto dela em uma expressão assim, especialmente quando se trata desse jogo de luz e sombra do Barker. Realmente uma atuação de alto nível, ela parece que nasceu para o gênero.
Ainda tem outros dois personagens que complementam bem o filme, a começar pela Sarah, interpretada pela Megan Lawless, que é uma amiga deles, e que aparentemente (aparentemente não, claramente) tem sentimentos pelo Bear (como alguém teria sentimentos por esse desgraçado é a parte difícil de entender, ainda mais uma mulher bonita como ela), e que começa sendo essa menina que é parte do grupinho ali do trabalho, que é a filha do dono, que tem o sonho de entrar para a faculdade de artes, aparentemente a pessoa mais comum de toda essa situação, e que se torna uma passageira da agonia quando existe essa história toda de desejo e, obviamente, num ciúmes doentio de alguém que foi desejada a amar o Bear como nenhum outro, obviamente em algum momento ia acabar sobrando para a coitada da Sarah, mas que desde o início do filme mostrou-se ser uma amiga muito mais valiosa para o Bear e se importar mais com ele do que a Nikki. E o outro é o Ian, interpretado pelo Cooper Tomlinson, que é o melhor amigo tanto do diretor quanto do Bear, e ele parece que vai ser só aquele papel de parceiro, de wingman do Bear, que vai tentar aconselhar ele quando as coisas derem errado, mas esse é outro desgraçado, porque ele tava ficando com a Nikki e tenta sabotar as chances do Bear com ela para ele não perder a transa. Ele não está nem aí com o Bear e muito menos com a Nikki, ele só liga para ele e seus próprios desejos, tanto que aquelas falas do Bear que ele ensaia no começo, creio eu que elas provavelmente colariam com a Nikki, não ao ponto dela se apaixonar por ele, mas de entendê-lo, e esse desgraçado para manter uma transa casual de vez em quando, diz para ele não fazer isso de jeito nenhum, e ainda quando ela enlouquece devido ao desejo, ele crê que ela só está com o Bear para lhe fazer ciúmes. Pior que em algum momento dá para crer que a amizade dos dois é genuína, mas não é tão verdadeira quanto parece.
Enfim, após dizer tudo isso, acho que dá para dizer com certeza que "Obsessão" é um dos grandes filmes do ano, não em orçamento, mas com certeza em recepção, em público, em crítica, em lucro, é um grande fenômeno cinematográfico, e merecido, é um filme original, criativo, com uma ideia muito boa, um tema muito bom e que comprova que cinema pode muito bem ser bem feito com pouco se for uma história que quem estiver a contando saiba a contar. Curry Barker é realmente uma revelação, um cara que claramente gosta muito do gênero, que manja e que sabe muito bem o que quer fazer e como quer fazer (diferente de seu protagonista) e que cria esse filme pequeno, fechado, quase claustrofóbico, que a cada segundo vai te emergindo cada vez mais dentro dessa narrativa. Um elenco muito bom, não só o pateta do Bear, que é muito bem interpretado pelo Michael Johnston, mas essa escolha, essa atuação da Inde Navarrette como a Nikki é algo espetacular, já que ela sai dessa menina comum, divertida e genuinamente boa para essa maluca, quase uma criatura que faz você ter medo dela, de um jeito assombroso e muito natural. Tem bons personagens coadjuvantes também, como a Sarah e o Ian, que complementam bem toda essa história e a grande mensagem por trás. Um filme que tem muito a dizer, muito a mostrar e que acaba sendo um terror sensacional que o cinema nos proporcionou recentemente.
Nota - 8,0/10