Crítica - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026)
Uma pedrada da ficção científica em pleno 2026.
O meu, o seu, o nosso ídolo Ryan Gosling finalmente está de volta. Depois de um 2025 sem filmes da lenda, ele retornou agora no início de 2026, num filme da dupla dinâmica Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis por diversos episódios de "How I Met Your Mother" (que para quem não sabe, é a minha série favorita), também fizeram "Uma Aventura Lego" (2014) - que é uma das minhas animações favoritas, que dirigiram a sensacional duologia "Anjos da Lei" (2012-2014), e que foram as mentes por trás do projeto de "Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018) - que é outra das minhas animações favoritas. Agora, eles retornam com este aqui, baseado num romance espacial de Andy Weir, o mesmo autor de "Perdido em Marte" (2015), e que é mais uma aventura sci-fi, space opera, e que sendo honesto eu tinha uma certa expectativa pelo pessoal envolvido, mas eu não dava nada, até que vieram as primeiras impressões, o pessoal amando, e aí a minha curiosidade tornou-se atenção e, cara, tenho que dizer: o pessoal está certo, que filmaço. Dei uma enrolada braba para assistir, o filme lançou em março, já estamos em agosto, então eu demorei para assistir, mas a experiência e a belezura que é esse filme fez compensar todo esse tempo perdido, já que é uma das melhores ficções científicas em muito tempo.
Quando o sol e diversas estrelas do sistema solar estão se apagando devido a astrofágicos, seres microscópicos que retiram a energia das estrelas aos poucos, a Terra está resfriando e eventualmente irá matar as plantações, consequentemente, levando ao fim da humanidade. Com isso, o cientista Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor do ensino fundamental, é levado por uma organização governamental para trabalhar no Projeto Hail Mary, uma medida que reúne diversas nações do mundo para achar uma forma de impedir o avanço dos astrofágicos, preparando uma viagem para uma das únicas estrelas do sistema solar que não vem sendo afetada por eles, chamada de Tau Ceti. Entretanto, quando acorda na nave onze anos após tudo isso, o Dr. Grace não se lembra de nada e não tem noção do que está acontecendo e precisa aos poucos recuperar sua memória, enquanto tem de lidar com um espécime da raça do planeta Erid, o qual ele chama de Rocky (James Ortiz), que também é um cientista e está em busca da mesma coisa que ele. Eu já gosto desse filme que ele é uma daquelas ficções científicas que quer contar uma história de um jeito sério, centrado, que tem uma metáfora ali, mas que é otimista, que traz uma mensagem positiva, uma vibe para cima apesar de tudo o que acontece, e isso me conquista mais do que qualquer coisa no gênero, trazer algo que pode ser sério e dramático ao mesmo tempo que traz o mínimo de positividade genuína, e acho que essa é a grande vitória que faz esse ser diferente de outros sci-fis e se destacar.
É um filme que conta essa história de uma forma não-linear e vai se desenrolando de um jeito muito bacana em suas duas timelines, fazendo com que a imersão vá aumentando aos poucos e usando bem essas duas linhas do tempo para contar a história, fazendo com que elas se completem perfeitamente ao invés de competir uma com a outra. Existe um interesse tanto em como aquilo tudo vai se desenrolar na linha do presente, quanto o que já se desenrolou na linha do passado, e é muito bem construído pela dupla Lord e Miller. O filme todo é muito bem dirigido, pois você consegue sair do silêncio e da solidão da nave direto para o caos que estava na Terra, de um jeito natural, em que você consegue acompanhar e ficar intrigado pelo pacote completo, além de ser um uso inteligente de algo que eu crítico muito quando existem filmes filmados para IMAX, que é a troca abrupta de aspect ratio para encaixar as cenas de IMAX no filme, e aqui é um uso dinâmico simples de: o IMAX é a linha do tempo presente, as outras cenas diferentes são no passado. Sei que são detalhes pequenos que não impactam tanto assim, mas é um detalhe que ataca meu TOC muitas vezes, então fico feliz que fizeram isso.
Como eu disse, o filme todo é muito bem dirigido, já começa com o Grace na nave, sem memória, sem entender o que aconteceu, encontrando a sua tripulação morta, e tendo aos poucos a memória restaurada, que justamente coincide muito bem com essa troca de timelines, mas eu curto muito como a vibe do filme é construída e equilibrada. É uma história que naturalmente seria algo de urgência, existe algo ali para acelerar o ritmo da história, mas a direção vai na contramão e vai desenvolvendo lentamente tudo aquilo, de um jeito que vai te colocando na história, que vai fazendo você criar um interesse por aquilo que está sendo apresentado, que vai te situando do que está acontecendo, e você genuinamente vai ficando intrigado por aquilo, até que esse interesse torna-se um conforto, porque é um filme gostosinho de se assistir, apesar de ter esse tema científico, é um filme que vai muito para o lado de ser entretenimento, acho que dá para encaixá-lo naquela categoria que eu falo bastante, do filme que consegue ser tanto algo mais artístico quanto mais entretenimento, e funciona muito bem assim, o Lord e o Miller conseguem criar essa trama dinâmica, divertida e interessante, sem ter tanta explicação a mais do que precisa, se levando a sério quando necessário, mas que cria momentos divertidos, engraçados e bonitos, emocional e visualmente falando.
Inclusive, visualmente, um espetáculo, existe ali uma construção muito bem feita em todo o setor técnico e toda a direção para deixar isso aqui bonitão, e realmente, é lindo. Cara, o espaço, a cena de Tau Ceti, que é praticamente o grande clímax do filme, cara, aquela cena é um absurdo, tanto no visual quanto no propósito narrativo, e como ela é filmada, como é bem dirigida, bem construída, como ela leva a um pico emocional do espectador, é maravilhoso, o final da cena com o Rocky saindo da atmosfera dele se sacrificando pela missão me pegou, confesso que quase escapou uma lágrima naquele momento. E tudo isso se deve aos diretores, mas também à parte técnica, não só visual, mas sonora também. O design de som desse filme é excelente, é bem criativo, você se ambienta muito pelo som em diversos momentos e torna-se parte da trama quando envolve essa relação entre o Grace e o Rocky. Além de uma trilha sonora espetacular, lindíssima do Daniel Pemberton, que conta com esses temas lindíssimos que vão contando a história através do som, que começa com temas mais pesados, aí vão ficando mais leves à medida que a missão do Grace e a sua relação com o Rocky vai evoluindo, e temas emocionais também, que pegam muito no espectador. Tem a questão das músicas licenciadas ainda, que são todas muito boas (aprende aí, "Supergirl"). Toca Harry Styles, "Sign of the Times", que vira meio a música que define o filme, mesmo que não seja a do Harry Styles, seja a Sandra Hüller cantando no karaokê, e ainda sim uma das cenas mais memoráveis do longa, incrível, e a letra casando perfeitamente com a trama. Outra muito bem escolhida é "Two of Us", dos Beatles, que também casa perfeitamente com o longa, especialmente na relação do Grace com o Rocky. Tem a música dos créditos, "Glory, Glory", de Ike & Tina Turner, que toca como se fosse quase o tema da vitória ao final, que faz você terminar o longa sorrindo.
É um filme muito bem editado também, a edição é dinâmica, existem boas montagens ali no meio que ajudam a avançar a história e criar proximidade por aqueles personagens sem tomar tanto tempo de tela, sem tirar o foco da narrativa principal, e claro, naquilo que eu já falei, de equilibrar e encaixar bem as duas linhas do tempo dentro do longa de maneira coesa, criando um ritmo único, que é agradável de se acompanhar. A direção de arte é muito boa, toda a construção dos cenários, a construção da nave, como aquela nave torna-se quase uma personagem própria dentro do longa, e como isso vai se desenvolvendo, até a própria IA da nave, a Mary, que a voz é feita pela Priya Kansara, deixe o ambiente vívido e intimista. E não só isso, o design, a criatividade por trás das construções, a nave, mas especialmente a tecnologia e o visual dessa raça do Rocky, que dão um toque diferencial, mais fantástico no meio do sci-fi. A própria construção do Rocky visualmente é muito legal, como eles fizeram, mesclando o CGI com fantoches, como isso em tela fica extremamente palpável e realista, não sei bem explicar, mas é algo que você consegue sentir a presença, você consegue sentir que o Ryan Gosling está de fato interagindo com alguma coisa e não com um nada que será acrescentado na pós. E toda a questão de efeitos visuais, além do Rocky, a cena de Tau Ceti que eu já falei, claramente vem Oscar por aí, claro que é cedo e que tem dois outros grandes concorrentes, "A Odisseia" e "Duna: Parte Três", mas, apesar de que neste exato momento, Duna ainda não lançou, então não dá para julgar pelo filme, mas os outros dois já venceram, e quanto à Odisseia, é um comitê que recentemente teve problemas com o Nolan pelas declarações na época do "Oppenheimer", então, hoje eu colocaria minhas fichas nesse aqui, merecidamente.
Na minha opinião, a coisa que melhor segura o filme é o Ryan Gosling como o Dr. Grace, é um personagem que é a cara dele e ele sustenta muito bem o longa como protagonista. Ele é um personagem bem Ryan Gosling mesmo, meio loser, um cientista com estudos questionados, professor de ensino fundamental, largado pela namorada, até o próprio quando ele está fazendo os experimentos com os astrofágicos pela primeira vez questiona o pessoal da força internacional se ele foi o primeiro a ser chamado porque ele é descartável, e, realmente, acho que não é ortodoxo um cara que dá aula para crianças se envolver em uma situação científica de emergência global, e ele não é um cara heróico e corajoso, pelo contrário, ele é um bundão, mas como ele foi dopado, como ele não tem essas memórias de quem ele é e ele vai recuperando aos poucos, isso é uma força para a jornada de amadurecimento dele muito grande, até porque ele só está lá porque quem iria no lugar dele acabou indo de Vasco nos testes, ele nem queria ir, foi obrigado a ir contra o consentimento dele, e como isso é uma subversão muito boa da trama, que vem em um momento em que o Rocky considera ele corajoso, onde ele realmente toma atitudes valentes por conta própria, e como esse flashback vem antes dele tomar um sacrifício final por conta própria, justamente por todo o desenvolvimento dele dentro daquela nave, é muito bem encaixado e potencializa mais ainda o arco desse personagem do que o esperado. Sem contar a atuação do Gosling, que consegue trazer essa personalidade meio excêntrica de cientista, misturado com essa timidez, com essa falta de habilidades sociais, ele é meio esquisitão, mas ao mesmo tempo é carismático, torna ele uma pessoa real, você gosta dele, você cria uma empatia, e somado a esse desenvolvimento maravilhoso que ele tem, fica difícil você não ficar apegado a ele.
Um desenvolvimento que passa muito por essa relação dele com o Rocky, que é o ponto alto do filme. Esses dois juntos são maravilhosos, o início da relação é de instigação pela interação, essas duas línguas que não são compatíveis, aí eles vão começando a se entender através de mensagens, aí ele consegue dar uma voz para o Rocky, que é feita pelo James Ortiz, muito bem feita, inclusive, pois ela é meio robótica pelo sistema, mas mesmo assim consegue deixar aquela pedra-aranha alienígena com um carisma absurdo, e a relação dele com o Grace é o ponto alto do filme, pois naquela interação que começa como curiosidade, vai surgindo trabalho em equipe, vão surgindo interesses em comum, que tornam-se uma parceria, uma amizade, até chegar num ponto de tornar-se fraternidade, de existir um amor de irmãos entre eles. Tem até uma cena, após a grande missão no clímax, que eu estava quase chorando por conta do Ryan Gosling e o amigo pedra-aranha-alienígena dele, que é uma prova de como eu estava tão envolvido nessa trama que eu estava emocionalmente preocupado com um fantoche de CGI que nem sequer tem rosto. Toda a sequência dos dois juntos naquela sala da tela, o Rocky descobrindo a Terra, as tradições humanas, as pequenas coisas, os filmes, é uma coisa tão simples, que poderia ser tão irrelevante, mas é tão bonito, dá tanto significado àquela relação e ao filme como um todo, faz com que você abra um sorriso e perceba o quanto a vida é maravilhosa, é de um sentimento tão genuinamente bom de se sentir, que não tem como não curtir. A maneira que a história deles se encerra também é a perfeita, o final que estava se encaminhando era bacana, mas a voltinha que dá no final encerra do jeito que tinha que se encerrar, que sensacional.
Outra personagem que eu curti como foi trabalhada foi a Eva, interpretada pela Sandra Hüller, que é uma personagem que aparentava que seria a engravatada do longa, a que traz as informações relevantes para a narrativa e, talvez, ser um par romântico para o Grace, mas, felizmente, nada disso acontece, e o desenvolvimento dela é uma parte secundária muito interessante para a trama, pois em um certo momento você começa a ver através dela, que deveria ser a chefe fria e centrada quanto a tudo, a pessoa com mais fé e mais esperança que tem por ali, e que é isso que move ela para acreditar na missão. Tem um diálogo dela com o Grace no barco, antes da cena do karaokê que eu já citei, que ele a questiona: "você acha que isso vai dar certo?", ela responde: "se Deus quiser", ele questiona: "você acredita em Deus?", e ela encerra "é melhor do que nada, né?", porque é isso, num momento que parece que tudo vai desmoronar, que tudo parece errado, você se agarra naquilo que te dá esperança, que te dá uma luz para se seguir, num ambiente lotado de cientistas e pessoas envolvidas no meio, você acreditar em Deus ou qualquer coisa religiosa, num ambiente tão cético, torna-se incomum, e são essas pequenas fagulhas de esperança que geram a reação dela no final, na sua última cena, já bem mais velha, num momento de ciclo completo dentro da narrativa.
Apesar de eu ter enrolado para cacete para assistir, não por falta de interesse, mais por falta de encaixe de horários, digamos assim, eu fui completamente fisgado por "Devoradores de Estrelas", queria ter visto no cinema, pois creio que a experiência teria sido fantástica e talvez minha nota fosse até maior, mas eu estava num momento complicado em que meus horários não conflitavam com as sessões do filme, mas que bom que eu consegui compensar agora e ter a experiência desse filmaço, mesmo que em casa, eu fiquei tão envolvido na trama desse filme, eu fiquei tão feliz assistindo, eu senti algo tão bom, eu me senti tão próximo desses personagens que eu senti que poderia viver dentro desse filme o dia inteiro se eu pudesse. Um filme que tem temas ali muito interessantes, uma metáfora muito boa sobre mudanças climáticas, um jeito muito interessante de abordar suas próprias questões científicas e explicá-las sem emburrecer o espectador, mas que funciona principalmente pelo seu lado humano. Um filme esperançoso, genuinamente feliz, que genuinamente traz um sentimento gostoso enquanto se assiste. É um dos exemplos perfeitos de equilíbrio entre a arte e o entretenimento dentro de um filme, é um daqueles blockbusters que dá gosto de assistir e é um filme que fica na memória por muito tempo, simplesmente maravilhoso, um dos grandes filmes dos últimos anos.
Nota - 9,0/10