Crítica - Hamnet - A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025)

O luto e as formas de lidar com ele na sua vida.

Eu sou um defensor de Chloé Zhao, podem me julgar o quanto quiser. Eu acho "Nomadland" (2020) um filmaço absurdo, daqueles que dá vontade de viver nele, eu adorei aquele filme na época e gosto até hoje, mesmo ele tendo ficado com uma fama de filme chato, apesar de ter sido o grande vencedor do Oscar na sua temporada, incluindo o prêmio de direção para Zhao, diga-se de passagem, muito merecido. Depois ela fez "Eternos" (2021), se juntou a Marvel e fez um filme que dividiu muita gente na época, divide até hoje, mas, se você se lembra bem, eu gosto desse filme, ela fez um milagre dando profundidade a um filme que as pessoas, novamente, julgaram como chato, simplesmente porque foge das convenções do MCU e tem personalidade (na minha visão), mas fato é que ela também teve alguns conflitos com o estúdio, coisa ali que foi claramente embutida contra a vontade dela. Agora, ela deu uma respirada, voltou a trabalhar novamente nesse cenário mais artístico, mais independente, fazendo esse filme que conta uma história envolvendo a família de William Shakespeare pela visão de sua esposa, aqui chamada de Agnes, e a inspiração para a criação de uma das grandes obras do autor, "Hamlet", num filme que usa dos mistérios em torno da história do autor para contar sua história.

Na pequena Stratford, na Inglaterra do Século XIV, conhecemos Agnes (Jessie Buckley), uma moça considerada esquisita pela sociedade, conhecida como a filha de uma bruxa da floresta, mas que na verdade é apenas mais uma irmã de uma família comum daquela época. Seus irmãos mais novos começam a ter aulas de latim com William (Paul Mescal), um jovem estudioso e com ambições artísticas, que leciona para quitar as dívidas de seu pai. Com uma aproximação e um sentimento crescente, Agnes e William se apaixonam na juventude, nisso, acabam engravidando, se casando, ficando juntos, outra gravidez, dessa vez de gêmeos, nascendo Judith (Olivia Laynes) e Hamnet (Jacobi Jupe), e William segue seu rumo a Londres para dar continuidade à sua carreira como autor, mas volta para casa sempre que possível. Quando uma tragédia abala a família, é mostrado como os dois acabam lidando com isso, o lado humano sensível de Agnes como mãe e esposa, contra o lado artístico e rústico de William como pai, marido, e escritor. Rapaz, que filmaço, hein? Eu confesso que eu não tinha tanta fé não, me soava meio Oscar Bait, não vou mentir, mas esse aqui conseguiu me cativar de uma forma legal, é impactante, é bonito e é impossível sair do filme e esquecer dele, ele vai ficando na sua cabeça por um tempo.

É importante o disclaimer de que esse filme não se trata de uma cinebiografia, de uma história real, nem nada do tipo, primeiro porque a esposa do Shakespeare sequer se chamava Agnes, o nome dela era Anne Hathaway (sim, Anne Hathaway, mas com certeza você já viu essa no Você Sabia, então não vem fingir surpresa, e nem eu deveria estar fingindo, todo mundo sabe), e segundo que são documentos muito antigos que não tem como afirmar 100% de veracidade, é mais uma história constituída através de suposições, mistérios e teorias, do que uma história que realmente aconteceu. Quais são os fatos? William e Agnes (que é Anne, mas eu vou chamar de Agnes por conta de ser o nome da personagem no filme) realmente tiveram um casal de gêmeos, o menino veio à óbito devido a Peste, e Shakespeare escreveu uma de suas grandes histórias, "Hamlet", inspirado nisso, como uma forma de lidar com seu luto. É baseado no romance homônimo de Maggie O'Farrell, que co-escreve o roteiro junto da Chloé Zhao, e eu acho que aqui temos um belo exemplo de storytelling, já que não precisa exatamente ter uma fidelidade quando contar a história de alguma figura histórica famosa, pois não faz diferença se for bem contada, que é o caso aqui.

A Chloé Zhao tem uma visão muito clara da história e sobre o que ela quer contar através de tudo isso, qual o assunto principal que ela quer tratar: o luto. O luto é um dos piores sentimentos que qualquer um pode sentir em algum momento da vida, mas acontece que ele é inevitável, todos nós passamos por isso e é questão de tempo caso você ainda não passou. A única certeza que a vida nos dá é a morte, essa frase tem um impacto, é pesada, existe uma reflexão acerca disso, mas eu acredito que não é só a nossa própria morte que essa frase se encaixa, mas de todos ao nosso redor. Você ter que ver pessoas que você ama partir é parte da vida, é difícil, é dolorido, mas a sua vida continua, o amanhã ainda vai estar lá. Isso é mostrado no filme quando vemos que Agnes, ainda criança, acabou perdendo sua mãe biológica, e até a atualidade lida com aquilo, ela ainda não entende aquilo muito bem, nunca chegou a buscar entender a totalidade de tudo isso. Mas, não existe luto pior do que um luto de um pai ou uma mãe por um filho, e esse tipo de dor é quase imensurável, nunca será apagado totalmente. E é esse o tema principal do filme, que está até na sinopse, mas no longa em si demora bastante para rolar, que é a perda do filho de Agnes e William, e como cada um acabou lidando com isso se um jeito diferente, praticamente oposto, mas como o jeito não importa, a dor é a mesma.

Zhao traz esse tema de uma forma muito pesada, bem construída, que passa por toda a construção narrativa que ela faz para gerar esse impacto quando vem o golpe. Ela começa tranquilamente, na calmaria, bem o estilo de filme dela mesmo, vai apresentando lentamente a Agnes, o William, mostrando a vivência deles, os problemas que cada um deles tem em casa, para depois mostrar eles se conhecendo, se apaixonando, tendo sua primeira filha, mostrar como o Shakespeare lidava com essa ambição de ser um autor em meio ao casamento. A diretora sabe muito bem utilizar o tempo de tela para criar essa história com calma, mas sem arrastamentos, sem barrigas, tudo num tempo muito certo e que não soa exagerado demais, nem contemplativo, muito menos chato. Você vai sendo introduzido aos poucos na rotina da época, os costumes, como eram as famílias, os problemas daquele tempo, você vai criando essa imersão na narrativa naturalmente. É tudo feito de um jeito que você vai se apegando, se acostumando com tudo aquilo, numa trama em que a história é a vivência daquela família, até que ocorre uma tragédia e muda toda a dinâmica que tinha ali.

Eu gosto muito da forma que esse filme retrata essa coisa do luto, já que não é só aquela coisa dos cinco estágios, ou a pura tristeza depressiva, a diretora sabe controlar bem as emoções para não ser algo que fique manipulativo e busque um choro fácil, os sentimentos aqui são quase teatrais, pois existe muito uma espécie de expressividade teatral nas atuações que acabam refletindo bem as obras de Shakespeare, criando não só momentos emocionantes por ser realmente mais fora do padrão, como nisso, acabara fazendo correlações diretas com a obra "Hamlet" em diversos momentos. As cenas não se estendem, não ficam minutos e minutos de choradeira, de lamentação, é tudo muito natural, muito humano, não acontecem todos esses momentos em sequência, é comedido, muitas vezes os sentimentos ficam escondidos, como uma forma dos personagens de buscar alguma força, ou fingir que a dor não existe, mas acaba que é sempre inevitável. O silêncio muitas vezes aqui acaba dizendo mais do que qualquer palavra, assim como a música do Max Ritcher (que entro em mais detalhes depois), você vai sentindo o verdadeiro peso daquilo tudo através de planos, de expressões dos atores ou de ações dos personagens, fugindo de um melodrama convencional e ficando de um jeito que impacta pela realidade da dor que retrata.

O elenco do filme é todo muito bom, mas o destaque absoluto é a Jessie Buckley, no momento em que estou escrevendo o texto, favoritaça absoluta para o Oscar de Melhor Atriz, e de forma merecida, talvez seja a melhor atuação da carreira dela até o momento, já que é um desafio completamente diferente. Ela carrega o filme, praticamente, em muitos momentos, existe uma singularidade nessa personagem que é admirável, pois ela é meio que uma espécie de Bela em "A Bela e a Fera", pois é a menina esperta, diferente, que vive no meio de uma sociedade onde a mulher só serve para fazer comida e aliviar a pomba do marido, mas por ela ter uma força ali que as pessoas não entendem, é tratada como esquisita, é dito pelo povo que ela é filha de uma bruxa, por exemplo, ela tem uma relação com a águia dela, e toda a questão da maternidade dela é constituída através da relação dela com a mãe biológica, a qual ela viu morrer quando criança. A gente vê ela nessas duas vertentes, da jovem diferentona até a esposa e mãe, e ela traz esse papel de mulher de família muito bem também. Eu gosto de como a Chloé Zhao não julga ela por ter virado aquilo que ela aparentava não ser, como também não tira esse espírito jovem dela mesmo nos seus momentos mais amadurecida, ela é a mesma pessoa, mas que passou por acontecimentos diversos, por anos de experiências, e nisso ela acabou amadurecendo comumente. Ela tem uma emoção muito singela, as vezes bruta, mas honesta, como uma ou outra cenas de gritos, que ela improvisou e gritou do fundo da alma, isso merece ser valorizado. Eu ainda gosto de como ela traz essa emoção só no olhar, a melhor cena dela na minha visão é a do final, o terceiro ato, onde ela não fala quase nada, mas só no rosto dela, a expressão dela vendo a peça, lembrando do filho, o rosto encantado com o olhar lacrimejando... Meu irmão, ela merece esses prêmios, que baita atuação, que entrega que ela teve.

A interação dela com o Paul Mescal também é muito boa, os dois funcionam muito bem juntos em cena. O amor deles é crível, você sente a paixão e o encanto que William sente por Agnes, assim como a admiração e o amor que ela sente por ele. A química deles é muito boa, e eles nitidamente tem tesão um pelo o outro, quanto mais tesão, melhor. Eles funcionam bem quando precisam estar juntos como casal, mas também quando existem momentos onde eles estão distantes internamente, o afastamento que há entre eles não é só geográfico, torna-se mental também, nisso gerando boas cenas de embate entre eles, onde ao mesmo tempo que eles tentam continuar juntos, o distanciamento soa inevitável. E, individualmente, que atuação do Paul Mescal, ele que estava sendo indicado à todos os prêmios, chegou no Oscar e perdeu a vaga para o Delroy Lindo por "Pecadores", que tem uma boa atuação, mas pô, o que o Mescal entregou aqui, ele não ter sido nem indicado é de uma tamanha sacanagem indescritível. A cena dele dirigindo os atores na peça enquanto lida com o luto do seu filho, seguido pela cena que ele cria o famoso "ser ou não ser, eis a questão?", cara, arrepia, a veemência que ele traz ao papel, ele encarna o papel. O personagem dele também é um que você consegue criar um apego, essa questão do artista que se sente limitado numa cidade pequena, que fica nesse dilema entre a família e a ambição, então existem camadas a mais ali que deixam ele mais crível, que façam que ele torne-se um personagem que você possa entender.

O elenco todo é muito bom, o pessoal do casting tava afiado, escolheram ótimos atores para todos os papéis. Eu gosto especialmente do Jacobi Jupe, o menininho que faz o Hamnet, que rouba a cena a cada momento em que ele aparece, ele tem uma veracidade no que ele fala, como se essa criança tivesse vivendo aquilo de verdade, ele tem cenas muito bonitinhas onde ele demonstra uma emoção, uma inocência, que deixa o personagem muito crível, tem uma cena dele com a Jessie Buckley que é fenomenal, onde ele explica o sonho dele de ser um ator junto com o pai, esse momento é muito legal, e a grande cena dele falando com a irmã doente dele, que também é excelente. Esse menino, na vida real, é irmão do Noah Jupe, aquele moleque irritante de "Um Lugar Silencioso" (2018), que também está aqui, onde ele interpreta o ator que interpreta o Hamlet na peça, e eu detesto esse ator, justamente porque ele é insuportável nos dois filmes do John Krasinski, mas aqui eu tive que dar o braço a torcer, primeiro pela clara referência dele ser o irmão mais velho do ator mirim na vida real e interpretar o que deveria ser a personificação da versão mais velha do personagem na narrativa, fazendo muito sentido com o arco dos personagens principais na cena, a reação de ambos os atores reagindo à performance dele performando como se o espírito do filho deles estivesse vivendo naquele ator por algum momento, é uma ótima cena que ele tem. Tem a Emily Watson também, que aleatoriamente pegou uma indicação de atriz coadjuvante de supetão lá no BAFTA, não é para tanto também, mas ela funciona bem como a mãe do Shakespeare, ela tem bons momentos e gera alguns bons conflitos quando é necessitada, tem algumas cenas legais, especialmente a que ela explica o luto por suas filhas para a neta mais velha, essa cena é impactante.

A construção técnica aqui também é impressionante, existe uma estética muito bem trabalhada pela Chloé Zhao, onde muitas vezes ela usa do visual para contar alguma coisa, como ela faz de praxe em seus outros trabalhos. A mise-en-scène desse filme é impressionante, a construção de cada plano, o significado que cada um tem, aquela cena do teatro aberto, com a câmera no palco, focando na platéia com a Agnes no centro de tudo observando, cara, é um quadro, é belíssimo. Diversas cenas são, isso se deve muito à direção de fotografia do Łukasz Żal, que tem um grande trabalho ali, tem planos abertos que funcionam, que contam uma parte emocional da narrativa, as cores também ajudam muito nessa questão, os tons vermelhos que rodeiam a personagem da Agnes, refletindo como ela age pela emoção, pelo calor do momento, e os tons azuis do William, que reflete algo mais racional, a frieza de um artista. A direção artística leva muito para esse lado também, o papel do design de produção e do figurino para essa composição visual, à construção dessa mise-en-scène, além da reconstrução de época, como tudo acaba soando muito palpável, o estilo de roupa da época, os cenários, a construção de Londres, é muito bem feita. E outra coisa que eu falei antes, mas que disse que ia falar mais, é a trilha do Max Ritcher, que é um espetáculo. É uma trilha tão singela, tão bonita, que muitas vezes conta o filme, já que o silêncio dos personagens muitas vezes torna-se fundamental para a construção narrativa, a música do Ritcher vem de fininho e surge lentamente, dando um empurrãozinho na emoção e pegando o espectador de jeito. A música dele cresce de um jeito que chega na última cena e você não consegue evitar uma lágrima ou outra, já que o tema dele é tão bonito que por si só já dá vontade de chorar, com as cenas então, é um combo de emoção. Ele ainda põe aquela música triste dele que toca em todos os filmes para tocar aqui de novo nos créditos, a famosa "In the Nature of Daylight", que é uma música dele que toca em "Ilha do Medo", em "The Last of Us", é bem batida, mas esse desgraçado colocou aqui de novo para o punch final.

Com isso, não há dúvidas de que "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" (que subtítulo horrível) é, de fato, um dos melhores filmes do ano. Ele parece o mais Oscar Bait possível, tem tudo que você pode imaginar: uma espécie de cinebiografia, baseado em alguém famoso, filme de época, história triste, que fala sobre arte, sobre luto, Reino Unido, música chorosa, atuação com choro e grito, ele tem a fórmula exata de ser um daqueles filmes chatos de Oscar que a Academia enfia goela abaixo. Mas, não é, pois tem uma artista competente por trás das câmeras, que pega essa história e a conta de um jeito que subverte essa expectativa toda e, apesar de ainda ser um filme de época triste, acaba impactando pela emoção genuína e por construções narratiavs que fogem do convencional desse estilo de filme, tornando-se algo mais palpável e que as pessoas acabam se emocionando mais. Um trabalho técnico excelente de direção de arte, de fotografia, figurino, trilha, a própria edição é muito boa, do nosso brasileiro Affonso Gonçalves (olha o Brasil aí de novo, estamos com tudo), e um elenco perfeito, liderado com maestria pela Jessie Buckley, numa atuação marcante do ano, seguida brilhantemente pelo Paul Mescal, numa performance que impacta. É um dos melhores do ano, sem dúvida alguma, é impossível sair daqui e esquecê-lo, é um filme que vive na sua cabeça por um tempo depois de acabá-lo.

Nota - 8,5/10

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