Crítica - Sonhos de Trem (Train Dreams, 2025)
Adolpho Veloso é o Brasil no Oscar (e a única coisa que esse filme tem)
Cá estou para falar sobre mais um dos indicados ao Oscar de melhor filme nessa bela temporada de 2025/26, que nos trouxe filmes de grandes estúdios, de grandes diretores, filmes de fora de Hollywood que conseguiram uma grande repercussão lá dentro, e este aqui se destaca por ter a jornada mais maluca de todas, que é um indie de Sundance, lá do início do ano, que acabou comovendo o público, sendo comprado pela Netflix, e numa temporada onde grandes favoritos foram caindo ao longo dos meses, este acabou subindo e se infiltrou ali no meio dos indicados à categoria principal do carecão dourado. Aqui no Brasil, ficou mais conhecido pela possibilidade de uma indicação para Melhor Fotografia, já que o diretor de fotografia do filme é brasileiro, o Adolpho Veloso, e seu trabalho vem sendo reconhecido mundo afora devido a este longa. Porém, é só fotografia que esse filme tem? Ou ele tem mais alguma coisa? É um filme que merece estar lá no alto escalão desse ano na premiação? Olha, na minha visão, esse filme aqui é exatamente o tipo de obra que eu não gosto e que eu fico me remoendo por dentro quando vejo as pessoas elogiando, é um daqueles longas que tem uma espécie de "repercussão cult", cujo uma certa bolha elogia pela beleza, pela mensagem, mas eu odeio quando o visual é a única coisa que um filme tem a oferecer, que é exatamente o caso por aqui.
Somos apresentados aos 80 anos de vida de Robert Grainier (Joel Edgerton), que quando criança era um órfão, nunca soube sobre seus pais ou sobre sua origem. Quando cresce, vira um lenhador, sem muita visão de futuro, até que conhece Gladys (Felicity Jones) em uma igreja, eles se apaixonam e acabam construindo um lar e uma família, tendo uma filha. Porém, como a vida de Robert nunca foi do jeito que ele gostaria, diversas coisas foram acontecendo que lhe deixaram em um estado de reflexão e sonhos, pensando que muitas dessas coisas poderiam ter acontecido de um jeito diferente, ou de um que ele pelo menos tivesse certeza sobre. Baseado no romance homônimo de Denis Johnson, o responsável pela adaptação é Clint Bentley, que está somente em seu segundo filme como diretor, mas que ano passado foi nomeado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado pelo bom "Sing Sing" (2024), junto com seu parceiro de escrita, Greg Kwedar, que era o diretor daquele, e agora os papéis se invertem neste. E olha, Bentley tem boas intenções, mas de boas intenções o inferno está cheio, eu entendo o que ele quer fazer por aqui e respeito isso, mas não é o estilo de filme que me apetece, não é o storytelling que eu gosto e não é algo que eu consigo admirar genuinamente.
Primeiro de tudo, eu acho simplesmente insuportável como essa história é contada, daquele jeito que você enxerga de longe que é um devaneio artístico do diretor, de querer trazer essa narrativa de um jeito que culmina com uma beleza visual, mas acaba que o visual apaga a parte emocional completamente para mim. É tudo muito propositalmente bonito, bem arranjado, com as cores e a qualidade em um ponto absurdo, soa tudo muito irreal e isso acaba que me afasta mais do longa do que me aproxima, eu não consigo me apegar por essa trama, por esse personagem, por mais que eles ensaiem ideias interessantes de um estudo de personagem, acaba que o foco excessivo no visual e deixar as imagens contar mais do que a própria trama em diversos momentos me dá mais sono do que apreço. Olha, eu não sou contra esse tipo de filme que a técnica conta parte da história, eu adoro "Zona de Interesse" (2023) por exemplo, que é praticamente 95% constituído no desenho de som, mas aqui o problema é que eu não vejo conectividade com a história no geral, os planos são bonitos por serem bonitos e contam muito menos da história do que o diretor estava imaginando, eu não absorvi nada do que eles queriam me passar, pois soa tudo tão jogado no meio de uma estética visual vazia.
Eu já não fui tão fã do filme anterior da dupla, o "Sing Sing", que é legal, é um bom filme, mas já não tinha me impactado tanto quanto impactou as outras pessoas, agora esse aqui não me impactou em absolutamente nada. A direção aqui me deu sono, é difícil de assistir sem querer dormir, eu comecei esse filme terça-feira e terminei na madrugada de sábado para domingo, o ritmo dele é inexistente e simplesmente não acontece nada, todos os acontecimentos desse filme são um bando de nada, é vazio ao extremo. Eles param a trama do Robert em um momento para focar num velho que mexe com explosivos, interpretado pelo William H. Macy, que é a subplot mais inútil que eu vi nos últimos tempos, não serve para absolutamente nada, não impacta em nada na história como um todo. O único acontecimento que impacta na narrativa é o que resulta na perda da família do Robert, que é a única parte que eu tive um apego emocional mínimo por ele, já que é uma situação que não tem como você não entrar um pouco em choque, mas pô, até nisso eles conseguiram me tirar, já que as consequências vem de uma forma tão lenta, tão trabalhadas de um jeito que meio que dane-se, que tornou-se impossível eu sentir qualquer coisa por aqui. Chega no final e eles ainda tentam me dar uma lição de moral sobre a beleza da vida, o sentido da vida, mas isso aí vem do nada na minha visão, o protagonista só se ferrou durante toda a exibição e só porque ele andou num avião, ele viu a beleza da vida? É isso mesmo?
Tem diversos personagens também que tem duas ou três cenas que o filme joga lá para criar diálogos reflexivos para virar quote em página do Instagram, mas a pior coisa, de longe, é o narrador, numa narração do Will Patton, que é insuportável, toda vez que ele abre a boca dá vontade de sair na mão com a tela, se você quer contar uma trama pelo visual, nem tenta trazer esse cara para me explicar tudo o que aconteceu, acho que teria até detestado menos se não tivesse essas interrupções chatas toda hora. E como eu falei, grandes atores em poucas cenas, que no final não servem para muita coisa não. A com mais destaque é a Felicity Jones, que faz a esposa do protagonista e tem até um papel com um certo destaque, tanto que depois que ela some, é onde o filme se afunda de vez na chatice, já que ela tinha até uma dinâmica interessante e trazia um dos poucos assuntos que o filme foi um pouco além da superfície, que foi o da paternidade. O próprio Joel Edgerton manda bem, acho que é uma atuação competente, pois ele tem que sustentar o filme sozinho por durante toda a rodagem, e ele é muito correto em certos momentos, sendo mais um observador do que um ativo, mas acho que o problema dele é mais da direção do que dele mesmo, já que são poucos os momentos em que eu me importei com ele ou tive empatia, é mais pontual do que contínuo, o que é uma pena, já que o que deveria ser a história dele torna-se mais um livrinho de imagens do que uma história propriamente dita.
Eu estou detonando o fato desse filme ser apenas visual o texto inteiro, mas tenho que assumir que o visual é realmente bonito, eu só não acho legal, não é do meu gosto que sustente o filme todo apenas nisso, que é exatamente o que acontece aqui. Nosso brasileiro Adolpho Veloso manda muito bem na direção da fotografia, e eu não estou elogiando só porque ele é brasileiro, é porque é um trabalho realmente exemplar de construção visual, mise-èn-scene e profundidade, gerando cenas muito bonitas que, verdadeiramente, são dignas de wallpaper. Acontece que é a única coisa que o filme tem, não passam de apenas imagens bonitas, mas que o significado delas é vazio, é sem impacto algum. Vou torcer para o Adolpho no Oscar, pois meu Brasil está acima de qualquer filme ruim, e não é culpa dele também, é culpa do diretor que jogou tudo só na fotografia e esqueceu de contar uma história que eu me importe. Para não ser injusto, tenho que dar o braço a torcer para a trilha sonora incidental, muito boa também, do Bryce Dessner, que ajuda um pouco a não dormir totalmente, já que são temas sensíveis e que se encaixam bem com as imagens do Adolpho, criando um mísero pingo de emoção no meio de um mar de sono. Tem uma música do Nick Cave também, indicada ao Oscar, que toca nos créditos, mas aí eu confesso que já estava dormindo antes de chegar ao refrão, então meio que se dane.
Dito tudo isso, "Sonhos de Trem" definitivamente não é para mim, é o exato tipo de filme que eu sou contra: muita imagem bonitinha, muita filosofia jogada e vazia, pouca história e pouco apreço pelo o que está sendo contado, apenas valorização do que está sendo mostrado visualmente. É um daqueles filmes que estão no Oscar esse ano, que vai ter a visibilidade dele, e um dia depois da cerimônia ele vai ser automaticamente apagado da memória coletiva, porque é esquecível, não tem nada nele que é marcante, é monótono, é chato, é difícil de assistir sem querer tirar um soninho, é uma luta contra o sono fortíssima, que faz todo sentido, já que os tais "sonhos" no título do filme: são os sonhos que você tem enquanto está dormindo vendo esse filme. Foram quatro dias para eu terminar de assistir, e o irônico é que é o mais curto dentre os indicados de melhor filme esse ano. Para mim, esse aqui e "Bugonia" deveriam se abraçar, se jogar rio abaixo e dar essas vagas para dois filmes melhores na lista, mas não vai mudar, eu já assisti, já dormi assistindo e é isso.
Nota - 4,5/10