Crítica - Marty Supreme (2025)

Achei que fosse só um filme sobre ping pong.

Os irmãos Safdie, a grande dupla de diretores formada por Benny e Josh Safdie, se separaram no início de 2024 e decidiram tomar rumos diferentes como realizadores e artistas, e o irônico é que ambos lançaram filmes com a A24 em 2025. Quando uma dupla de diretores se separa, cria-se uma dúvida na nossa cabeça se os próximos filmes deles serão a mesma coisa, mas, geralmente o que ocorre, é você ver os filmes de cada um separadamente e descobrir quem que era o talentoso de verdade. Aconteceu isso com os irmãos Coen, onde após a separação, Joel Coen fez o excelente "A Tragédia de Macbeth" (2021), uma grande adaptação sensacional da obra de Shakespeare, enquanto Ethan Coen fez umas comédias de crime que não deram muito certo, na realidade, muito pelo contrário, foram detonadas pela crítica, que foram "Bonecas em Fuga" (2024) e "Honey, Não!" (2025), até por isso faz sentido olhar para trás e relembrar que quem era creditado por todo o trabalho antigamente era o meu mano Joel. Com os irmãos Safdie talvez dê para se dizer o mesmo, já que os dois filmes que lançaram essa temporada tem uma disparidade de qualidade gigantesca. Enquanto o filme de Benny, "Coração de Lutador - The Smashing Machine" (2025) é um filme tão broxante e desinteressante que eu nem sequer me animei a trazer uma crítica para a página, que apesar de ter boas coisas, no geral é medíocre. Agora, este aqui que estou falando, "Marty Supreme", é sensacional, um dos melhores filmes de 2025 sem dúvida alguma, mostrando quem de fato era o irmão talentoso.

Nos anos 50, acompanhamos a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um prospecto estadunidense do tênis de mesa, que busca o sucesso e a fama a qualquer custo, querendo ser o próximo grande atleta dos Estados Unidos. Após ser vice-campeão do British Open para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), Marty põe como objetivo de vida ir disputar o campeonato mundial no Japão, não só para provar que ele é melhor que seu rival, mas para provar que o tênis de mesa é um esporte que merece seu espaço nas grandes marcas e grandes mídias, e provar que ele é uma estrela que pode movimentar multidões se quiser com suas habilidades na modalidade. Porém, no meio disso tudo, Marty precisa arranjar o dinheiro para chegar até o Japão, nisso se envolvendo em altas confusões, incluindo sua melhor amiga/amante, Rachel (Odessa A'zion) estar grávida, lidar com o multimilionário Rockwell (Kevin O'Leary) e com sua esposa, a famosa atriz Kay Stone (Gwyneth Paltrow), a qual ele também mantém um caso, e muitas outras loucuras que é melhor nem falar para evitar os spoilers emocionais da experiência. Cara, que loucura é esse filme, ele é quase uma comédia de erros, uma sequência de eventos absurdos atrás do outro que torna-se praticamente impossível de tirar os olhos da tela, numa história que fala sobre a diferença de sonho, objetivo e obsessão, e a linha tênue que separa e conecta esses três.

Somos apresentados a esse moleque, um jovem meio arrogante, imprudente, que trabalha com o tio na sapataria, mas que o verdadeiro sonho é ser o maior jogador de tênis de mesa do mundo, ou melhor, o maior atleta dos Estados Unidos. É quase uma desconstrução do sonho americano, já que toda a jornada de Marty é uma obsessão em busca do seu sonho, e aí entra a tal da linha tênue entre o objetivo e a obsessão, e como a busca pelo sucesso de um jeito obsessivo acaba sendo prejudicial e autodestrutiva na maior parte das vezes. Esse filme faz um contraponto legal com outro que todo mundo gosta, mas eu não gosto justamente por isso, que é "Whiplash - Em Busca da Perfeição", pois lá eu considero uma romantização dessa obsessão pelo sucesso, cujo a obra falha em criar, para mim, um protagonista crível, já que o longa valida a obsessão dele. Aqui, é o oposto, já que o filme reconhece o tempo todo que Marty é um ser humano desprezível, ele fica te lembrando o tempo todo do quão egoísta, egocêntrico, doentio e maluco é esse personagem, de um ponto em que você começa a duvidar se ele está realmente ouvindo o que ele está falando por diversas vezes. Há uma noção de que ele não é nem um pouco saudável em seus pensamentos, que ele está preso num sonho, mas de uma maneira doentia e nem um pouco lúcida.

Na direção, o Josh Safdie pega essa questão do protagonista ser um babaca e vai manipulando de um jeito até ele subverter e fazer com que nós, espectadores, comecemos a torcer para esse arrombado. É um personagem que é muito fácil de se identificar com ele, querendo ou não, porque os objetivos dele são justificáveis, os problemas são os meios que ele busca isso, mas ele quer ser esse atleta famoso, que estampa propagandas, que traz um público casual para seu esporte, ele quer ser o maior, ele busca nada além da grandeza. Eu, honestamente, consigo entender o lado dele, um moleque que veio do nada, que não tem nada garantido na vida, que luta para conseguir viver do que ama e quer levar isso mais além, quer fazer disso algo que impacte positivamente nele, na sua profissão, no seu esporte. Porém, que nem diria o lutador e youtuber Renato Money Moicano: "se você só se identifica com seu lado profissional, você provavelmente é uma pessoa muito ruim", e acaba que isso se aplica ao Marty, porque ele só se vê como um jogador de tênis de mesa, nada mais e nada menos do que isso, até que o filme aos poucos vai lhe colocando na realidade de ver quem ele é: um tremendo de um filho da p*t4. A construção dele, a busca pelo objetivo, os caminhos que ele atravessa, todos os problemas que ele passa por mais de duas horas de exibição, para chegar ao final, ele ver tudo isso desmoronar, e ser obrigado a voltar para a vida real que ele esqueceu que existia, é a personificação do ditado: "a soberba precede a queda".

O Safdie constrói essa narrativa com excelência, ele conta essa história naquele ritmo frenético dele, similar ao de "Joias Brutas", creio eu que um pouco menos caótico, já que aqui o caos é mais controlado, mas, ainda sim, é um caos, tem cada cena nesse filme que causa uma tensão absurda, ou usa situações absurdas para fins quase cômicos, e é uma loucura atrás de outra, sem parar, tu sai de um momento absurdo para outro com uma naturalidade que chega a ser bisonha. É quase um jogo, o Marty vai de quest em quest, a cada quest ele tem um coadjuvante que vai ficar do lado dele, seja ajudando ou atrapalhando, e nisso, a cada uma dessas, vem um absurdo, vem alguma megalomania, uma série de eventos que leva a outra que tem um fim bizarro. É, de fato, caótico, maluco, totalmente fora da caixinha, e nisso parece que o tempo voa, você vê duas horas e meia de filme que parecem noventa minutos, já que você compra tanto aquela trama, ver as loucuras que o Marty vai se metendo no meio, os problemas repentinos que vão surgindo na vida dele em questão de dois ou três dias, que torna-se uma viagem maluca que não dá para tirar os olhos em nenhum momento.

E mesmo sendo sobre isso tudo, sobre obsessão, sonhos e tal, não deixa de ser um filme de esporte também, e aqui eu acho que é a comprovação suprema de quem é o diretor talentoso da família. "Coração de Lutador", o filme do outro irmão, é um filme de luta, de MMA, porradaria franca, é um esporte mainstream, um dos mais consumidos do mundo, não só isso, como retrata um peso-pesado, ou seja, era para ser brutal, empolgante, animador, mas é tão monótono que torna-se sem graça e anticlimático. Aqui, é um filme sobre ping pong, sobre tênis de mesa, que apesar de ser um esporte olímpico respeitável e tudo mais, passa longe de ser mainstream, de ser rentável, no Brasil a gente conhece mais pela acessibilidade que existe, pois não é difícil ver uma mesa com duas raquetes dando sopa em algum bar ou escola, e porque temos uma geração atual muito talentosa e vitoriosa na modalidade, liderada pelo Hugo Calderano, que é um atleta que furou a bolha do esporte. Mas, o Safdie ele pega o tênis de mesa e cria uma emoção comparável a de uma luta, e mais: há mais trocação franca nas raquetadas das partidas aqui, do que em qualquer soco desferido em "The Smashing Machine". Parando com a comparação, focando só no que o Josh faz, é um troço de maluco, cada cena de alguma partida é um espetáculo, ele grava o ping pong como se fosse uma mistura de uma luta com uma dança, onde os dois participantes na cena estão tão envolvidos no esporte e na adrenalina contra seu parceiro que torna-se quase um sexo em forma de ping pong, há tesão nas partidas, o duelo final quando acaba traz uma sensação de gozo, você chega lá junto com o Marty.

A culminação disso tudo acima vem em uma performance antológica de Timothée Chalamet, se um dia eu critiquei, estava fora de mim, porque que atuação sensacional, marcante, é digna de todos os prêmios que está abocanhando. O Chevrolet constrói muito bem essa prepotência do personagem, ele tem essa arrogância, essa gana pelo sucesso que torna-se cada vez mais doentia ao passar da trama. Ele tem um sonho, você crê no sonho dele (e até por isso torce por ele algumas vezes), mas ele é um completo babaca, escroto, que você vê ele tentando passar por cima de todo mundo para alcançar o que ele quer, e de vez em quando torce para ele conseguir, esse é o pior de tudo, já que o Chalamet tem ali uma certa lábia, uma convicção no que ele fala, que é envolvente, você compra o que ele quer, mas não exatamente tudo o que ele faz. Ele vive nessa realidade fantasiosa que ele criou na cabeça dele que aos poucos vai desmoronando, e isso é satisfatório, pois vai obrigando ele a lentamente voltar para o mundo real. Ele tentou passar por cima de bilionário, de criminoso, de fazendeiro, dos próprios amigos e parentes, até mesmo da amiga dele que ele engravidou, e isso culmina numa das melhores cenas finais que eu vi nos últimos tempos. Ele não só virou pai, a paternidade foi o choque de realidade que ele precisava, os pés dele foram postos de volta no mundo, aquele choro é uma mistura de felicidade por ter visto seu filho na sua frente, e de tristeza pois ele sabe que tudo que ele sonhou e pôs na sua cabeça, acabou de cair por terra. Só tragam a estatueta, eu sei que tem o Wagner, que é a minha torcida para o meu Brasilzão, mas se ele perder para o Chalamet eu fico indiferente, até porque eu considero essa a melhor atuação da temporada.

O elenco todo é muito bom, muito bem escolhido, inclusive acho que na questão de casting é bem interessante, já que a maioria sequer é ator primariamente. Tem jogador profissional de tênis de mesa, jornalista, apresentador, rapper, diretor, influencer, autores e muito mais. Mas, os com mais destaque, eu começo pela Odessa A'zion, que faz a melhor amiga do Marty, cujo trai o marido com ele, e ela manda muito bem, ela tem um timing excelente, a personagem tem uma interação muito bacana com o Marty e essa mina é uma coitada também, ela faz um monte de cagada ao longo do filme, mas ela muitas vezes torna-se uma passageira da agonia que o Marty traz para todo mundo. A Gwyneth Paltrow faz outra mulher que trai o marido com o personagem-título, mas aqui eu acho já não funciona tão bem não, acho que é uma personagem que está aqui para conectar o protagonista de um ponto para o outro, e apesar dela ter a questão de ser ela quem questiona os objetivos do Marty, acaba que é algo que caberia para qualquer outro personagem na trama, ela é bem dispensável e também não curto muito como se encerra a participação dela no longa. O Kevin O'Leary (sim, o cara do Shark Tank), que faz o marido dela, é muito bom, ele tem momentos excelentes e ele é tão desgraçado quanto o Marty, mas ele não tem motivo nenhum, muito da minha torcida pelo Marty foi porque esse cara era pior, é um ótimo contraponto para o protagonista e ele impõe certas coisas que só ferram com ele ao longo de toda sua participação na narrativa.

O Tyler the Creator como um dos colegas do Marty também está muito bem, tem uma ótima sidequest ali no começo do segundo ato e tem um certo carisma ali que conquista, além dele ser o único que não cai nas besteiras do Marty porque ele é amigo de verdade e conhece o mau caráter. Além da Paltrow, outra coisa que eu acho que poderia ter sido melhor explorada, tinha chão para isso e ficou deixada de lado, é a relação do Marty com a família dele, especialmente com mãe, que existe um ensaio ali, mas é muito fraca, acho que faltou uma conexão maior para causar um impacto maior quando viesse o final (que já impacta demais e poderia ter impactado ainda mais). Não sei, senti que nessa parte o longa ficou devendo um pouco e casaria totalmente com o tema que ele está retratando de alguma forma, é que tem tanta loucura que uma coisa ou outra vai ficar sobrando, e acho que foi essa questão familiar que ficou para trás. E tem o Abel Ferrara nesse filme também, fazendo uma espécie de criminoso/gangster que tem um cachorro e esse bicho só causou problema para todo mundo durante toda a exibição, é muito legal essa sidequest toda vez que foca nela, é a parte mais louca do filme sem dúvida alguma, aqui é o cúmulo dos absurdos que o Safdie põe nos filmes dele.

Na parte técnica, tem algumas coisas que eu quero destacar, a primeira é toda a reconstrução de época que existe dos anos 50, passa por Londres, Paris, Tóquio, mas especialmente a construção de Nova York nos anos 50 é perfeita, remete a diversos clássicos daquela época, especialmente a forma como o Safdie filma a cidade, mostrando mais do lado sujo suburbano, deixando menos espetaculoso e mais pé no chão, com mérito também de um excelente trabalho de direção de arte, figurino e cenografia, especialmente do figurino, eu achei o design das roupas excelentes, até porque mostra dois extremos com excelência, que são as roupas que os pobres e os ricos da época usavam, e como o Marty transita entre esses dois tentando se portar como um dos ricos, usando terno o tempo inteiro, roupas sociais, mas sempre acaba na sujeira, em algo mais periférico no final. Outra coisa que precisa ser destacada é a trilha sonora do Daniel Lopatin, que auxilia bem na construção do caos controlado do Safdie, é algo similar com o que ele já fez na parceria anteriormente, a trilha de "Joias Brutas" também é excelente, mas aqui esse malandro engrandece a obra, a música dele dita o tom da narrativa o tempo todo. E a montagem é o complemento perfeito da direção, não à toa feita pelo próprio Josh em colaboração com seu parceiro de longa data, o Ronald Bronstein (na edição e no roteiro), e aqui ajuda o filme a ter esse ritmo frenético que nunca torna-se cansativo em nenhum momento sequer, é uma experiência longa que soa como um filme de uma hora e meia, muito por conta da precisão que há nessa montagem, gerando o caos perfeito que Safdie buscava.

Encerrando por aqui, concluindo que "Marty Supreme" é um dos melhores filmes de 2025, não só em toda a questão qualitativa, mas de experiência, é um filme que é grandioso enquanto você assiste, você vai denotando toda a grandiosidade que existe em volta dele e entende porque ele impacta tantas pessoas. É um filme sobre a linha tênue entre o objetivo e a obsessão, e digo até mais, é o retrato perfeito da geração atual, Marty retrata um estilo de pessoa que acha que vai ser grandiosa, que tem essa obsessão pelo sucesso a qualquer custo, mas que nisso perde toda sua humanidade no processo. É errado ter objetivos grandes? É errado sonhar alto? De jeito nenhum, eu também tenho meus objetivos que são sonhos altíssimos, mas não é por isso que eu vou deixar de viver o presente para viver somente nessa coisa que só existe na minha cabeça por enquanto. Trabalhe pelo futuro, se mova pelo futuro que você quer, mas não deixe ele te consumir, pois no processo tem muito a se perder, e é essa a mensagem que eu captei daqui. Uma performance absurda de Timóteo Chevrolet, no que é um dos melhores filmes dos últimos anos, e é uma experiência, realmente. É marcante, magnético, fascinante, realista e satisfatório. Brilhante.

Nota - 9,0/10

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