Crítica - Pânico 7 (Scream 7, 2026)

Quando você se torna aquilo que mais criticava.

Vamos mais uma vez falar dessa franquia que eu gosto tanto, já trouxe crítica de todos os outros da franquia por aqui, todos após ver pela primeira vez, então é algo que faz parte da história da página. E uma coisa da franquia que estava sempre presente em todos os filmes foram problemas de bastidores, mas nesse sétimo filme eles se superaram. Primeiro que a franquia tinha mudado o seu rumo e apostado em um novo núcleo de protagonistas, com novos diretores, mas que foram desfeitos quando Melissa Barrera, a Sam, se posicionou pró-Palestina publicamente, o que não caiu bem para os produtores da franquia, já que é uma produção da Paramount, que é uma empresa que tem uma linha política totalmente contrária ao que ela demonstrou. Com isso, ela foi demitida, a sua irmãzinha nas telas Jenna Ortega saiu, supostamente, em protesto, e logo em seguida, os diretores dos últimos dois que assumiram a bronca após o falecimento de Wes Craven, a dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet, também deixaram o projeto. Com isso, o modo alerta foi ativado para a franquia e o desespero tomou conta, fazendo eles indo buscar de volta Neve Campbell como Sidney Prescott, a final girl, a protagonista original, cujo causou os problemas nos bastidores do 6, se recusando a voltar devido ao baixo salário oferecido, agora retorna com seu salário desejado, e foram atrás de Kevin Williamson, o criador da franquia, roteirista dos primeiros filmes, para dirigir. Feito às pressas e num completo desespero, o resultado não poderia ser diferente, temos aqui uma das entradas mais fracas de toda a franquia, provando cada vez mais que "Pânico" está se tornando aquilo que criticava.

30 anos após os eventos do primeiro filme, Sidney (Neve Campbell) vive sua vida normalmente, ainda lidando com as cicatrizes do que ela viveu no passado em Woodsboro (cinco vezes, diga-se de passagem). Sua filha mais velha, Tatum (Isabel May), tem 17 anos e vive com o mistério do passado de sua mãe, que ela evita falar muito sobre, já que está tudo na internet, na literatura e no cinema. Quando Sidney começa a ser novamente atacada por alguém alegando ser o Ghostface, que ameaça a ir atrás de sua filha, ela se vê mais uma vez com o trauma de sua vida voltando para assustá-la mais uma vez. Nisso, não só o Ghostface retorna para ajudá-la, mas também trazem de volta Gale (Courteney Cox), ainda com as sequelas do ataque de Nova York, e os gêmeos Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding), que retornam agora como estagiários da jornalistas (depois de serem dilacerados no filme anterior conseguiram voltar, esses dois são imortais, não é possível). Cara, a trama é exatamente o retrato do que foi esse filme nos bastidores, é claramente feito às pressas, no improviso com o que eles tinham que fazer dentro de um prazo predefinido. Claramente não tinham o que fazer e a franquia tornou-se um caça-níquel descarado, que eles nem fizeram questão de esconder por aqui, deu para ver que aqui eles não tinham objetivo nenhum além de arrecadar uma graninha.

O Kevin Williamson é um cara que deu muita sorte na vida, já que ele escreveu a mesma história diversas vezes e deu a cagada de que o melhor roteiro dele caiu nas mãos de um diretor excelente que era o Wes Craven, ele construiu a carreira toda dele no cinema encima do Craven, já que por ele mesmo ele não conseguiria tanto assim. Claro, tem uma carreira respeitável, trabalhou em diversas produções que tem um certo prestígio, especialmente na televisão, mas, apesar de ter sido a grande mente pensante que criou a franquia, merece um respeito, uma admiração, mas ele não é tão bom assim, e aqui, trabalhando às pressas, era claro que ele foi colocado na fogueira e esperavam que ele fizesse algum milagre, mas ele é só o Kevin Williamson, ele é um cara normal, ele não é um salvador, e aqui ficou claro isso, nem ponho tanto a culpa nele, porque vendo o que eles tinham aqui, não tinha salvação nenhuma mesmo. Parece que pegaram algumas ideias que soltaram no ar, foram jogando para o ChatGPT e nisso foram tentando construir alguma história encima de coisas soltas que foram jogando na sala de roteiro. Muita coisa aqui parece que foi realmente escrita com ajuda do GPT ou de alguma IA, já que são ideias boas, mas desenvolvidas de um jeito tão imbecil que realmente não soam ter feitas por humanos, nenhum humano é tão isento de noção e sentimento para criar algo tão vazio e pobre emocionalmente e artisticamente.

A única ideia que nunca tinha sido trabalhada nessa franquia que poderia gerar frutos interessantes era a maternidade, botar o centro da narrativa focado em mãe e filha. Claro, no início tudo começa com a mãe da Sidney, mas nunca vimos isso em cena. Aqui eles tentam trabalhar a Sidney como mãe, já colocando ela na posição de mãe de uma adolescente, que está na mesma idade que ela tinha quando aconteceu tudo com ela pela primeira vez em Woodsboro, até tentam dar a ela um grupo de amigos praticamente igual ao da Sidney no primeiro longa, mas nada aqui funciona, pois essa relação é construída de uma maneira tão pobre e artificial que dá pena de quem foi envolvido nisso. Você não tem construção, você não tem impacto, tudo aqui soa tão vazio que fica só nulo de assistir, é sem graça, sem emoção, não tem decupagem, é oco e soa como se colocassem isso como uma armadilha vazia para pegar desprevenido aqueles que assistem filme mexendo no celular. Todas as relações nesse filme são vazias, a filha da Sidney com o namorado dela é o namoro mais sem sal que eu presenciei nas telas de um cinema na minha vida se bobear, o grupo de amigos é muito ruim, mas o cúmulo das relações ruins é Sidney e Gale, pois põem as duas de dupla aqui, retomam uma dinâmica para apelar para um certo tipo de nostalgia, mas aqui não consegue nada, nem apelando para a nostalgia eles conseguiram tirar alguma emoção que não o tédio e a indiferença, e ainda tentam dar um pay-off narrativo de nada no final, porque não tem nenhuma construção para ter uma cena final das duas se abraçando e dizendo "você é família", existe uma rachadura ali, uma cena que mostra um conflito, mas é só uma e é uma muito rasa que nem sequer parece uma briga, parece só mais um diálogo padrão das duas.

Esse vício em trazer nostalgia (essa moda que já foi batida e saturada nos últimos anos, mas que agora vai voltar com força máxima em dezembro por conta de Vingadores, então se preparem) ainda gera uma trama com um tema muito atual que é a inteligência artificial. Eles trazem de volta, sem spoilers, Stu Macher (Matthew Lillard), através de IA para assustar a Sidney, mas cria-se um mistério: será que é IA mesmo, ou o Stu nunca morreu? Isso até poderia ser interessante, mas precisamos falar: saiu diretamente do Reddit essa narrativa, fóruns de discussão e teorias sobre a franquia que apontam que o personagem estava vivo por ser o único Ghostface que não foi morto com um tiro na testa. Dito isso, poderia ter sido trabalhado de um jeito interessante na narrativa, até tem bons momentos, porque o Matthew Lillard é um ator que sabe muito bem usar o overacting ao seu favor e adaptar isso para qualquer papel, mas aqui, é mal trabalhado. Primeiro de tudo, a suspensão de descrença do espectador tem que ser gigantesca ao ponto de derretimento cerebral, porque não é possível que não se deram ao mínimo trabalho de rejuvenescer o ator. Eles rejuvenesceram o Billy nas ilusões da Sam nos últimos dois, mas aqui eles tacaram isso no lixo e deixam ele lá como o ator é hoje em dia, ou seja, quem fez a IA, ainda se deu o trabalho de fazer uma pesquisa para ver como seria o rosto do Stu atualmente só para assustar a Sidney. Outra coisa é que esse recurso é usado para trazer outros personagens da franquia de volta eventualmente, e aqui é a prova máxima do fanservice barato, primeiro essa questão de suspensão de descrença e o comprometimento total em descobrir como seriam essas pessoas hoje em dia, segundo que eles trazem a seleção mais aleatória de personagens possível, em cenas claramente gravadas em chroma key, talvez esses atores nem de casa saíram para gravar, porque que coisa mais feia, gravaram até de pijama se bobear.

É engraçado que eles precisam apelar a membros antigos do hall de personagens da franquia por fanservice, justamente no filme que tem o pior elenco de toda a franquia. Cara, tem a Sidney, tem a Gale, personagens originais e tudo mais, tem o marido da Sidney, interpretado pelo Joel McHale, que é um personagem bacana, que tem momentos bacanas com a Sidney, mas que é subaproveitado, além de sofrer com a "síndrome de Dewey", onde ele apanha e é esfaqueado de todas as formas possíveis, mas milagrosamente sobrevive no final (esse aí na realidade morreu, tinha que sacrificar, voltar não dá para voltar mais não). Agora, meu irmão, a filha da Sidney é uma personagem insuportável. Ok, é adolescente, provavelmente era para ser insuportável mesmo, mas ela é irritante devido a ser um arquétipo batido, você já viu esse estilo de personagem em trocentas continuações, nem se deram ao esforço de adicionar algum traço de personalidade que a deixasse um pouco diferente, é aquele mesmo tipo de filha adolescente que você já viu um milhão de vezes, trabalhado do jeito que foi trabalhado um milhão de vezes. Aí tem o grupinho de amigos dela, as duas amigas que são o maior dane-se possível; o namorado que é totalmente sem sal, a relação desses dois tem tanto tesão quanto uma toalha tem com uma tampa de privada; e tem o esquisitão que claramente é construído para ser um suspeito de ser o Ghostface, e ele não tem nenhum traço também além de ser esquisito, ele é só esquisito por ser esquisito mesmo, o Jeffrey Dahmer desse filme.

Também tem os gêmeos, Mindy e Chad, que também são imortais, que também tem a tal da síndrome do Dewey, porque esses dois sofrem as lesões mais fatais possíveis e nunca morrem, no outro filme o Chad foi dilacerado, esse maluco tem que ser um X-Men para sobreviver ao que ele sobreviveu, mas aqui ele volta para novamente tomar outro fatality e sobreviver de novo. Sem contar que esses aí já deu também, né? Essa mina é tão chata que nem o próprio irmão aguenta algumas vezes, e esse cara era legal no quinto, mas já perdeu o propósito também. A Gale aqui é totalmente avulsa a tudo, totalmente perdida, não tem nenhum propósito, é só porque é a Gale e a única personagem que aparece em todos os filmes, é só para manter o streak da Courteney Cox, e ela não faz praticamente nada além de atropelar um cara fantasiado de Ghostface em um determinado momento, essa é a função dela. A Sidney é a melhorzinha, é a mesma personagem que a gente conhece de sempre e é totalmente coerente com todas as participações dela na franquia, colocar ela nessa função de mãe (em tela, porque já havia sido mostrado que ela era mãe anteriormente) é uma ideia interessante, que até gera bons momentos da Neve Campbell dentro da trama, mas que fica aquém do que poderia, justamente porque a filha dela não causa nenhum impacto narrativo ou emocional, soa quase como algo unilateral, parece que toda a emoção vem da Sidney e olhe lá também, porque foi muito fraco em todos os quesitos.

E cara, a suspensão de descrença tem que ser mesmo a um nível de você desenvolver algum retardo mental, porque eles fizeram aqui um filme burro para gente burra. Primeiro que é pobre emocionalmente, pobre narrativamente e até pobre em produção, em estrutura. Meu irmão, construção aqui não existe, o filme parece que pula direto do primeiro para o terceiro ato, personagens que são feitos só para serem vítimas fáceis e em produção, eles dão a desculpa de um toque de recolher no final, para gerar cenas da cidade vazia. Primeiro que a cidade já é totalmente falsa, nem a Globo aprovaria uma cidade dessas no Projac nem para uma novela das 19h, segundo que é a cidade que tem a pior vigilância da história, já que não tem nenhum policial de tocaia vigiando o toque de recolher, terceiro que tem grito, tem barulho para um cacete, e ninguém sai de casa para olhar e nenhuma câmera de segurança pega. Meu irmão, se fosse bem feito, se fosse bem trabalhado, não faria diferença, seriam detalhes mínimos que não iam incomodar no geral, como todo filme bom dessa franquia acaba tendo. Mas é tão ruim, tão mal feito, que esses micro problemas ganham um destaque maior por estarem envolvidos nesse monte de estrume. Sabe o que também é um monte de estrume? Os Ghostfaces desse filme. Eu achava que depois da família risadinha do sexto não dava para piorar, mas eles conseguiram, fizeram os piores de todos os tempos, a pior motivação da história, a cena de revelação claramente foi escrita com o GPT aberto do lado, porque não é possível. São aqueles personagens que aparecem em uma, duas cenas no máximo, e tem tão pouco destaque que você tem que ser esforçar para lembrar quem são. Não dá não, que coisa bizarra, é só ruim mesmo.

Dito isso, estou cansado de falar de "Pânico 7". Esse filme drenou minha energia, ele sugou minha alma e estragou meu final de semana por inteiro. Eu passei o final de semana todo triste depois que eu saí do cinema. Isso aqui é uma desgraça, uma das piores coisas que a franquia poderia oferecer por agora. Até às coisas boas nele tornam-se ruins em um determinado momento, porque ele tem uma abertura, uma cena inicial muito boa, uma das melhores da franquia, bem construída, bem dirigida, mas que, ao longo do filme, literalmente não teve nada a ver com o resto da trama, então, foi feita por qual motivo? Não sei, daria um ótimo curta se fosse lançada isoladamente, mas está incluída nesse combo de bosta que estraga até as melhores coisas que poderia oferecer. Um elenco pífio, história ridícula, roteiro escrito com o ChatGPT aberto do lado, diálogos ruins e uma apelação para nostalgia que chega a ser vergonhosa. Nem a Sidney salvou dessa vez, acho que tá na hora de parar e voltar só daqui dez anos de novo, porque saturou e, lentamente, estamos acompanhando a franquia real se tornar a fictícia "Stab" que vemos dentro dos filmes. A metalinguagem está intacta, ao menos, mas a que custo? Isso aqui é a coisa mais idiota que poderia sair dessa franquia. Eu odeio o terceiro filme, mas ele tem coisas ali que são tão ruins que são engraçadas. Agora, esse supera como o pior da franquia, justamente porque ele só me deixou triste, não tem nada nele que é engraçado, não tem nada nele que dê para tirar algo bom - além da cena inicial, que depois se perde de qualquer jeito. Esse filme é só deprimente mesmo.

Nota - 3,0/10

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