Crítica - A Única Saída (No Other Choice, 2025)
O grande injustiçado da temporada de prêmios?
Park Chan-wook é um dos grandes cineastas do século, aspas fortes, mas acho que não há contestação nisso. Entregou três pedradas com a Trilogia da Vingança, incluindo um dos maiores sucessos do cinema sul-coreano, que é "Oldboy" (2003) (o 02 do cinema deles, diga-se de passagem, ao menos em repercussão). Depois, ele entregou o que eu considero um clássico moderno, "A Criada" (2016), que é um filme que quanto mais eu penso nele, mais eu gosto, esse aí é sensacional, meu favorito dele, obra-prima. E, mais recentemente, trouxe "Decisão de Partir" (2022), que eu vi não faz muito tempo, e confesso que esse eu achei abaixo dos demais, é bom, mas falta alguma coisa ali a mais, falta um pouco mais de sustentação para a história. Agora, em 2025, ele volta com seu novo projeto, este que estou falando, que foi muito mais elogiado do que seu último e acabou conquistando o povo, especialmente lá no TIFF, o Festival de Toronto, vencendo o International People's Choice Awards, ou seja, o melhor filme em língua não-inglesa do festival segundo quem esteve lá presente. Com isso, aí vieram as cotações a grandes premiações, as dúvidas que se ia ser ou não nomeado ao Oscar, talvez indicado a mais do que apenas Filme Internacional, mas aí, veio a velha questão da maldição do cinema sul-coreano no Oscar, que apesar de ser um dos de maior sucesso ao redor do mundo com a bolha cinéfila, para a Academia, só "Parasita" que conseguiu quebrar esse feitiço em volta dessa indústria. Porém, não é por isso que precisamos deixar de lado um filme de um cineasta como esse, e devo dizer: estamos diante de um dos melhores trabalhos do diretor.
Yoo Man-su (Lee Byung-hun) é um empregado veterano da Solar, uma grande empresa de papel da Coreia do Sul, e devido ao seu trabalho e mais de 25 anos de dedicação a tal, tem uma carreira bem sucedida, um bom salário, e uma família bem estruturada com sua esposa Mi-ri (Son Ye-jin) e seus dois filhos. Contudo, num dia, uma empresa estadunidense acaba comprando a Solar, fazendo uma onda de demissões em massa, onde uma das vítimas acaba sendo Man-su. Sem rumo e desempregado após duas décadas e meia, Man-su tenta buscar emprego em outra empresa na mesma área, mas se assusta ao ver o quão grande está sua concorrência, já que ele não foi o único afetado por essa onda de modernização e automatização. Com isso, ele decide tomar medidas extremas, encontrado uma única saída: se ele não será escolhido, ele eliminará todos os seus concorrentes que estão em seu caminho, até ele ser o único remanescente para o cargo, nisso, iniciando-se uma trama de estudo, trapalhadas e confusões, que mostram que nosso mano Man-su não é um cara ruim, mas que se sente na necessidade de conseguir isso acima de tudo. É um filme que conversa um pouco com outro que eu trouxe recentemente para cá, nosso querido "Marty Supreme", e são dois longas que acabam se complementando bem nessa questão de criar protagonistas que passam por cima de tudo e todos em prol de um objetivo maior, a questão é que Marty passava por cima para fugir da CLT, enquanto Man-su passa por cima para ter uma assinatura na sua CLT.
O Park Chan-wook conduz essa trama de um jeito muito bem, que te deixa instigado a continuar, ele vai apresentando os elementos da história de pouco em pouco, vai instigando aos poucos o espectador a entrar nessa jornada do protagonista e acompanhar o absurdo dentro dessa narrativa. Primeiro, é que é o contrário do anterior do diretor, o "Decisão de Partir", que é um bom filme, mas é um longa policial que começa já te jogando no meio do caso sem preparação nenhuma e acaba sendo um pouco confuso na primeira metade, aqui, neste, é totalmente o contrário, já que aqui é feito de pouco em pouco e é muito eficiente. Você é apresentado ao protagonista, à família dele, a como se encontra a situação familiar dele, nos momentos bons, o status quo que ele vivia e como isso vai caindo aos poucos para semear o que ele vai fazer, a construção que o leva a ter medidas extremas mais para a frente dentro da narrativa. Existe essa calmaria, onde o tom entra em um drama comum, até que o Park pega e vai colocando esses elementos absurdos, construindo uma comédia de humor obscuro, usando muito da montagem e da cinematografia para contar essa história, dando um tom que você se diverte, fica tenso, preocupado e existe um drama, em proporções muito bem equilibradas que não tem como você não ficar envolvido com essa história de algum jeito.
Existe toda essa questão do protagonista com o seu emprego, como ele se enxerga sendo aquela profissão durante uma grande parcela da sua vida, são duas décadas e meia dedicadas à produção de papel e acaba que isso, de alguma forma, faz com que ele defina que sua vida é aquilo ali, ele só sabe sobre papel, o único assunto que ele domina é papel e quando ele perde isso, acaba que cria-se um sentimento de vazio, um questionamento de "o que eu sou agora?", já que foi tudo o que ele fez por anos e que deu praticamente tudo o que ele tem. O filme traz bem essa empatia, você se põe no lugar dele, você cria um certo apego por ele e por tudo o que ele passa, não tem como você não entender um pouco do que acontece ali e dá para notar que era algo que ele gostava, que ele era apaixonado, e esse amor genuíno que ele tem por papel e por trabalhar com isso torna cada vez mais pesado tudo o que ele passa. Claro, ele toma medidas extremas para recuperar isso, a própria obra vai te lembrando que ele está errado no que ele está fazendo, e ele mesmo sabe que é errado, mas ele sentir que aquele é o único jeito de recuperar a vida que ele adorava e se sentia confortável trazem sentimentos mistos, desagradáveis, você não sabe se torce para ele fazer ou se fica se sentindo mal por ele estar fazendo. O Park Chan-wook é brilhante nessa questão da ambiguidade nas ações de seus personagens e aqui não é diferente, é uma sensação tão agridoce a cada passo que ele dá que você fica em dúvida se fica feliz por ele estar conseguindo ou chateado pelo mesmo motivo.
Chan-wook usa bem os artifícios técnicos ao seu favor para contar a história, tem seus próprios maneirismos, que ele vem carregando tem um tempo já, especialmente na montagem, e aqui não é diferente. A montagem é muito similar a que ele fez em "Decisão de Partir", maneirismos de edição, divisão de tela, mescla de elementos, uso de reflexo em telas, muitas coisas que muitos diretores tentam usar e acabam soando vazias ou fracas, o Park consegue deixar encaixado perfeitamente na narrativa, já que conta a história, é essencial para o storytelling que hajam essas marcas dele. É essencial para demonstrar os sentimentos dos personagens em cena, muitas vezes mostrando visualmente como eles se sentem, como eles estão em determinado momento da trama, do que expor isso através de diálogos, e é onde o longa se destaca. Tem uma cena dividida, de uma chamada de vídeo, onde o diretor mescla os dois componentes no mesmo plano, sem divisa nem nada, e essa cena é tão bem construída, ela diz tanta coisa sobre aquele momento em específico, o que os personagens envolvidos estão passando, que causa um impacto, que você sente ali um peso, e esse é só um exemplo de vários dentro do longa. Outra coisa que eu achei sensacional foi o uso da música, não só a trilha incidental do longa, como as músicas licenciadas e como o Chan-wook as põe na narrativa, em momentos onde acabam colaborando para um tom mais ácido da comédia, especialmente a primeira cena de assassinato, que é uma loucura tão grande com aquela música de fundo que torna-se impossível de não quebrar de rir naquele momento.
Outra coisa que engrandece o longa é a atuação principal do Lee Byung-hun, uma performance de alto nível, que me fez sentir falta dele na lista do Oscar desse ano. Ele leva a trama para a frente com tranquilidade, ele começa bem nesse papel do pai de família comum, do bom marido que faz churrasco no fim de semana, que cuida dos filhos, e aos poucos essa imagem dele, quase que idealizada, vai se desmanchando e ele vai perdendo aquela imagem que ele tinha de si mesmo. O rosto dele é muito expressivo, o olhar dele diz muita coisa, você notar ele no início do filme, no meio e no final chega a ser bizarro, já que toda a história leva a um ponto em que você já não se vê mais do lado dele. O longa é correto em nunca dar razão ao que ele faz, já que nem o próprio personagem acredita nisso, é bizarro como dá para sentir no olhar desse malandro a culpa e o questionamento surgindo a cada segundo, como você nota a sua hesitação antes de executar seus planos e como nem ele acredita mais naquilo a partir de um certo ponto. O longa também é correto ao ir quebrando essa imagem de pai perfeito fora da jornada dele de assassino, aos poucos plantando sementinhas de seus problemas no passado, como o abuso de álcool e as agressões físicas que ele causou ao enteado devido a isso, então é um cara que o longa te confirma como conturbado, mas que você ainda sente uma certa empatia por ele muito pela performance do Lee, que tem cenas que são absurdas na atuação dele, especialmente quando ele não fala nada, sem abrir a boca esse maluco já faz você entender o que ele está sentindo e em que situação ele está metido no meio. Excelente, simplesmente alto nível.
O filme sabe muito bem construir essa relação do protagonista com sua família e como isso é um grande impacto nas suas ações, no que ele faz ou deixa de fazer. Basicamente, na cabeça dele, ele age para fazer tudo isso por sua família, mas você nota que ele vai fazendo por ele mesmo desde o começo, usando essa coisa da família como uma desculpa para soar menos pior na cabeça dele. Tem a questão dele com o enteado, que ele é basicamente o pai dele mesmo, foi ele quem criou, e essa relação é mais explorada num segundo plano, onde você vê ele dando dicas e vendo como o menino acaba sendo problemático e nisso ele vai se enxergando nessa figura do guri. A filha dele, mais nova, que é neurodivergente, mal fala, a única coisa que ela tem é talento para a música e o afeto pelos cachorros, e como ele usa essa imagem dela como um combustível para fazer as atrocidades que ele sente que precisa fazer, como ele chega a um ponto de ver ela mais como motivação do que como filha. E, claro, sua esposa, que eu apelidei carinhosamente enquanto via o filme de "'Skyler coreana", já que é basicamente a mesma coisa. É triste ver essa mulher envolvida nessa situação cujo ela não tem a mínima ideia de que esteja acontecendo, e existe essa tensão de que ela pode descobrir a qualquer momento e nisso você não sabe se torce para ela descobrir tudo e sair de perto desse malandro, ou se você torce para o cara se dar bem com ela, pois até nisso o filme te põe um pouco no lugar dele, já que ela tem o próprio "Ted coreano" dela.
É um filme que nisso torna-se muito agridoce, característica padrão da carreira do Park Chan-wook, onde qualquer julgamento moral surge e acaba tornando-se errado, já que ninguém é 100% mocinho e nem 100% vilão, existem coisas e coisas que vão levando esses personagens a certo ponto e você não sabe mais no que acredita ou não. Esse julgamento moral se estende até as vítimas que ele vai precisar fazer para conseguir a tal vaga de emprego dele, onde há esse questionamento diversas vezes. O primeiro que ele vai matar, à principio, parece um grande de um vagabundo bêbado e inútil, mas que mostra que é um cara que entrou nessa de alcoolismo devido ao desemprego, que tem uma esposa que ele ama mas em meio a um casamento em ruínas, ela trai ele, essa mulher também atrapalha muitas vezes o nosso Man-su, então existe essa área cinzenta muito bem estabelecida nesse personagem. O outro é um que inicialmente parece meio babaca, meio arrogante, mas que tem um momento ali com o Man-su que mostra que ele era um cara de boa, bem sucedido, gente fina, mas que estava no lugar errado na hora errada. E tem um que é triste, o pai de menina, que esse é o estopim de julgamento do longa, pois não tem como não ficar chateado com a morte desse cara, que estava trabalhando lá honestamente, deu dinheiro para a filha sair com as amigas e esse bosta do protagonista foi lá e matou o cara na covardia. Esses julgamentos morais ao longo de toda a narrativa geram um final igualmente agridoce, onde você não sabe que sentimento sentir ao ver os momentos finais. É uma mescla de recompensa pela jornada, mas o sentimento de "a custo de quê?", eu terminei o filme um pouco confuso comigo mesmo pois eu não sabia exatamente o que sentir ali.
Tem provavelmente mais coisa que possa ser dita daqui, mas eu vou parar por aqui antes que fique maçante. A questão é que, de fato, "A Única Saída" é um dos melhores filmes de 2025 e acabou, injustamente, ficando para trás nessa temporada de premiações, mas, honestamente? Pega as indicações de Train Dreams e Bugonia e passa todas para cá. Irmão, que baita filme, uma experiência que é essa jornada, uma montanha russa que mexe com seus sentimentos e vai te entregando uma trama que você se envolve e vai ficando com você à medida que o longa vai passando. Um suspense bem construído, dramas muito bem trabalhados, mas que se destaca também na comédia, usando de um humor mais ácido e mais absurdo para contar essa história, nos entregando uma obra que traz reflexões, que é divertida de um certo ponto, você ri, fica tenso, preocupado e se impacta com dramas na mesma proporção e tem uma das melhores obras do diretor. Lee Byung-hun numa atuação sensacional, uma das melhores do ano, e também digo que Park Chan-wook é um dos melhores que temos em atividade, acrescentando mais um filmaço a sua filmografia. No mínimo, um filme memorável.
Nota - 8,5/10